quarta-feira, 20 de março de 2013

Os que sabiam cantar



Antonio Contente
                                                                                
Numa longa entrevista que deu à Folha de S. Paulo já faz algum tempo, o compositor Chico Buarque garantiu que a canção, do jeito que a conhecemos, está com os dias contados. Claro que, em termos de música popular brasileira não tenho vastos conhecimentos, não sou nenhum Ruy Castro ou Edmilson Siqueira, mas, humildemente, confesso que adoro uma canção antiga. Nem diria que, cronologicamente, sejam músicas do meu tempo. Até porque essas coisas, afinal, não podem ser delimitadas assim. Entendo que um cara que esteja nascendo hoje poderá muito bem, daqui a trinta anos, se daqui a trinta anos ainda existir mundo, o que eu duvido, curtir um velho Lupicínio. 

Nem vou falar do que se compõe (ou decompõe) atualmente porque, francamente, faço ouvidos moucos para tais claves. E quando vejo, por exemplo, nas TVs, as multidões de jovens delirando nos shows de rock ou axé, em geral opto por guardar minha boca para comer minha farinha.

Tarde dessas lembrei de uma canção antiga em que o cantor celebrava “aquele olhar tristonho da cor do luar”. Ora, amigos, vamos falar a verdade, dizer que um simples olhar tem essas características não apenas enriquece o gesto como santifica pálpebras e retinas. E sou imediatamente remetido para a noção de que os compositores atuais deixaram de saber dizer as coisas, até porque se referir às zonas do meretrício apenas como zonas do meretrício, conforme ocorre em muitas letras, não tem a força de apontar tais locais como “ruas de amor e de pecado”. Que é como faziam antigamente.

Os morros do Rio... Bem, os morros do Rio viraram objeto de polícia e sociologia. Todavia, o que de fato faz bem às minhas tardes de chuva é saber que ali, para alguém, aquilo já foi apenas palco iluminado onde, vestido de dourado, o camarada se descobriu a cantar suas parcas ilusões “entre as palmas febris dos corações”. Para depois ver a amada, distraidamente, pisar nos astros... 

Olha, não consigo me acostumar com a realidade de que um apaixonado não possa mais pegar um violão para dizer que sonhou que a mulher idolatrada estava tão linda numa festa de raro esplendor. Ou que “adeus” são cinco letras que choram num soluço de amor, isso sem falar como deve ser duro um sujeito não mais saber berrar que tem o companheiro inseparável na voz do seu plangente violão. Poucas coisas são tão lindas, na música popular brasileira, como esse jeito simples, maravilhoso, de se referir ao instrumento de cordas como “plangente violão”...

Se você quer um sinal das pioras do mundo, concentre-se na realidade do quanto seria apedrejado alguém que escrevesse hoje que em sua rua mora uma deusa possuidora de olhos onde a lua costuma se embriagar. E que em tais olhos o sol, num dourado sonho, vai claridades buscar...

Mas, para focar melhor a que levam as contradições das épocas, o jornalista Milton Frungilo me contou que um conhecido seu que curte velhas canções e mora numa bela casinha na Vila Industrial, domingo desses nela entrou, depois de umas e outras. Feliz disse para a mulher, bem mais nova, chamada Maria, que o nome dela principiaria na palma das mãos dele. Arrematando com um “vem, querida, quero descansar na serpente de seda dos teus braços”. Ao que ela retrucou:

- Eu, hein, sai pra lá. Detesto cobras...

E quando o camarada foi dormir ela colocou, no som, um rap de angustiante atualidade...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Espalhando alegria





Edmilson Siqueira

Em 1985, no Bar do Zincão, alguém teve a ideia de fazer um bloco de Carnaval. Não sei dizer se eu estava presente nesse dia, mas nos almoços beneficentes que se seguiram eu estive no primeiro e no segundo (foram três) inclusive assinando o “Livro de Ata” da fundação da gloriosa Toma na Banda. O nome era assim, sem acento na palavra “Toma”. Com o tempo virou “Tomá”, mas isso é outra história.
O fato é que, no Carnaval daquele ano, com uma bandinha no chão e tocando marchinhas antigas, o bloco desceu a Benjamin Constant em direção ao Centro, entrou na Glicério, fez uma graça no Largo do Rosário e pegou a General Osório iniciando o caminho – e subida – de volta ao Bar do Zincão, passando, claro, pelo City Bar para tomar a saideira.

Uns 300 foliões, se tanto, se atreveram.  O bloco vingou, continuou saindo no sábado de Carnaval por vários anos (está aí até hoje, claro), mas em 1994, por problemas que prefiro deixar pra lá, não havia saído. Já era setembro ou outubro do ano da graça de 1994 e o Carnaval de 95 corria sério risco, pois perigava da Tomá na Banda não sair de novo. Foi então que cinco amigos, reunidos no City Bar, mais precisamente na mesa 10 (que está lá até hoje, não sei se com esse número, mas que ficou conhecida como Mesa da Diretoria) na iminência de não ter o bloco, resolveram fundar outro. Esse humilde escriba estava entre os cinco e só não abro mão de ser o autor do nome da dita cuja: sugeri City Banda e todo mundo topou na hora.
A história da City Banda, hoje disparada a maior banda de Carnaval de Campinas – o desfile de sábado passado tinha mais de dez mil pessoas – acho que já é por demais conhecida e não pretendo contá-la de novo, até porque saí da diretoria há um bom tempo e não saberia descrever o que tem ocorrido de lá pra cá. Só sei que os diretores continuam segurando a peteca dignamente e, faça chuva ou faça sol (quase sempre faz chuva...) a City desbrava as ruas do Cambuí arrastando considerável multidão.

Esse papo aqui é mais pra dizer que a intenção, quando fundamos a City Banda, se era suprir uma lacuna, era também um incentivo para que outros bairros da cidade formassem suas próprias bandas. Dei várias entrevistas onde fiz questão de dizer que não havia rivalidade alguma com a Tomá a Banda, muito pelo contrário, ela nos apoiou e nós a apoiamos sempre. Éramos, praticamente, as duas únicas bandas de Carnaval de rua de Campinas. Logo depois surgiu a simpática Banda do Candinho e, por um bom tempo, as três foram as únicas a oferecer uma alternativa de folia para a cidade.
Mas, a forte presença de universitários em Campinas fez com que, em Barão Geraldo, começassem a pipocar novas manifestações carnavalescas traduzidas em festa na rua, em desfile com percussão, enfim, na mais completa tradução dos velhos carnavais, o que a City e a Tomá na Banda sempre quiseram promover.

Por isso, hoje, vejo com grande alegria que o que plantamos deu frutos. Enquanto o Carnaval oficial de Campinas virava uma festa violenta (mais de 30 ônibus depredados a cada ano), com trios elétricos que fugiam totalmente a   qualquer característica local e com escolas de samba tentando imitar as cariocas e paulistas, mas sem qualquer condição financeira e estrutural para tanto, os blocos de ruas foram tomando conta de várias regiões da cidade.
Claro que ainda não chegamos nem perto do Rio de Janeiro, onde cerca de 450 blocos (corrigi o número depois da postagem, é maior do que eu pensava) saem todos os anos pelas ruas cariocas, levando um Carnaval e a folia para muito mais gente do que aboleta no Sambódromo. Mas chegaremos lá, pois hoje há nada menos que 33 blocos em Campinas (ou 32, o Berra Vaca sai duas vezes) realizando um Carnaval espontâneo, carregando multidões em seus desfiles e revivendo a origem dessa festa, quando, antes de começar a Quaresma, o povo cometia os “pecados” todos, brincando na rua, jogando água e farinha nos outros, enfim, se encharcando de alegria para enfrentar os quarenta dias seguintes que a Igreja Católica mandava serem de resguardo.

As sementes do Tomá na Banda e da City Banda germinaram e hoje se espalham em frondosas árvores pela cidade. É esse o Carnaval do povo, onde entra quem quer e brinca à vontade. Paulinho Lima, Tadeu Costa, Geraldo Jorge, Zé de Oliveira e esse blogueiro acho podem dormir tranquilos: o Carnaval das bandas de Campinas – do qual fomos pioneiros – é uma realidade que veio pra ficar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ágata

                           
Antonio Contente

Ágata me contou que veio para esta cidadezinha da Ilha do Marajó faz algumas semanas, e que ainda vai ficar alguns meses. Ela trabalha numa repartição do governo que tem escritório aqui, e está cobrindo o período de licença de uma colega. Despacha pequenos papéis, carimba coisinhas, tudo numa sala apertada, numa casa de madeira com telhado de zinco, próxima à praça principal que é o centro da movimentação dos que vivem na área. Ocupa uma mesa baixa, com ventilador de teto sempre a girar. Talvez você já tenha visto cena semelhante em velhos filmes americanos que contavam histórias passadas nas Ilhas dos Mares do Sul.

Ágata aparenta 50, diz que tem 40, porém talvez ande pelos 47. O clima meio áspero quase na linha do Equador certamente não fez nenhum bem à sua beleza, contudo não a devastou totalmente. Os olhos de Ágata, pôr exemplo, são absolutamente luminosos. E quando sorri, mostrando dentes surpreendentemente alvos, exibe duas covinhas bastante charmosas nas bochechas.

– Na realidade – ela me disse – a solidão aqui na ilha não pesa o tempo todo. Agora, no fim da tarde, começo da noite, sai de baixo...

Foi neste ponto que ela acabou detalhando a parte que achei mais pungente da sua vida recente. A repartição a mandou para cá sem alternativas, e não lhe deu nada além das passagens em um barco atulhado. Nos primeiros dias ela ficou num quarto que alugou na casa de uma senhora nativa. Quartos, afinal, sempre se alugam de “uma senhora”.

– Mas era muito quente – Ágata suspira – e com verdadeiras nuvens de carapanãs.

– E o que você fez?

– Arranjei uma casinha. É de fundos, perto do mercado, porém tenho a companhia da dona do imóvel, na frente.

– E os carapanãs?

– Comprei um ventiladorzinho. Você sabia que qualquer ventinho espanta os mosquitos?

– E a sua família, Ágata?

– Mora em Belém.

– Marido? Filhos?

– Não. Mãe, irmãs...

– Bom, enfrentar essa barra mais alguns meses não vai ser nada mole, não é?

– Não vai. Principalmente depois que eu pensei ter achado um meio de driblar a solidão.

Lembrou então que, não muito tempo depois de ter chegado à ilha, apareceu na repartição alguém que ela considerou “um moço muito simpático”. Mais novo do que ela, é certo, porém bem falante, comunicativo, alegre.

– Todo dia de tarde vinha me buscar. Comíamos alguma coisa perto do mercado, e íamos assistir à novela das oito na farmácia.

– E depois?

– Passeávamos na praia.

– E depois?

– Foi o melhor tempo na casinha de fundos que aluguei. Aposentei a rede de solteira, comprei uma grande, com varanda, de casal.

– Bom –observo – como você acentuou que “foi”, só posso dizer que lamento que nada tivesse dado certo.

– Pois é, um dia ele chegou pra mim e pediu que lhe trocasse um cheque. Sabe o que eu fiz?

– Trocou.

– Não, eu disse que não precisava. Se ele necessitava de algum dinheiro eu emprestava, não precisava nenhum cheque.

– E ele? Aceitou?

– Não. Fez questão de me dar o tal cheque. Era uma sexta-feira, disse que ia a Belém resolver uns troços e que na segunda voltaria.

– Lamento que não tenha voltado.

– E eu muito mais. Na segunda, quando sai da repartição fui para a casinha, não consegui dormir.

Ficou acordada a noite toda?

– Não, peguei a rede e fui para o meu local de trabalho, tenho a chave de lá.

Nessa altura do papo eu estava com uma pergunta engatilhada; sobre o cheque, naturalmente. Talvez me preparando para fazê-la busquei uma frase óbvia de consolo:

– Ora, vai ver que ele ainda aparecerá. Depois, se te deu um cheque sem fundos...

– Pois aí é que está – Ágata corta e me olha nos óculos.

– O que? –Levanto as sobrancelhas.

– Também pensei que o cheque não tivesse fundo, quase não fui recebê-lo na única agência de banco que tem aqui, ali na pracinha. Tinha fundos, sim.

– Ora, menos mal – dou um sorriso.

– Poderia ser – ela suspira – só que eu nem fazia questão dos vinte reais. O que eu queria, te juro por Nossa Senhora de Nazaré, é que ele voltasse...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Dezessete anos


Edmilson Siqueira

Hoje, 6 de janeiro, está fazendo 17 anos que Zezé e eu nos conhecemos. Era um sábado chuvoso como esse domingo, como foi ontem e como é o verão de modo geral desse lado debaixo do Equador.  Eu morava na Guilherme da Silva, num apartamento cujo maior atrativo era estar a uns 500 metros do City Bar. Com a vantagem de que para ir até lá era uma subidinha pela Júlio Mesquita e para voltar era descida só. Acho que alguns leitores desse blog sabem da importância desse aspecto geográfico.

A sexta-feira anterior tinha sido calma – devo ter ficado com alguns amigos no City até por volta da uma ou duas da manhã e descido pra casa. Ou chegado mais cedo, alugado um filme numa das três locadoras que funcionavam a menos de 100 metros do apê, para assistir antes de dormir. Sinceramente não me lembro.

Mas me lembro que cheguei no boteco por volta das 11 da manhã, dei um passeio, antes, pela feirinha de artesanato, não comprei nada, claro, e me aboletei numa mesa para a primeira cerveja. Tadeu já estava lá, como sempre. A mesa, me lembro muito bem, era a 10, a chamada “da Diretoria” (por causa da fundação da City Banda que cometemos nela) que nem sei se ainda guarda esse número, pois à época o City tinha apenas dez mesas, ainda não existia o largo em frente que triplicou o número de mesas do bar.

Como disse, chovia e nada revelava que dali a alguns instantes, dois seres completamente diferentes (bem, nem tanto) iriam se conhecer e passar a escrever suas histórias a quatro mãos. A chuva dava tréguas, saía o sol e, todas as vezes em que ameacei ir embora, ela voltava e me impedia de sair (não era bem assim, eu só falava em ir embora quando estava chovendo, mas tudo bem). Almoço foi um sanduíche – o José ainda não tinha se esmerado nas bacalhoadas da vida – feito ainda pelo grande Nilson e a mesa, que começou só com Tadeu e eu, ali pelas duas das tarde já não comportava mais as outras cinco ou seis pessoas que chegaram e se sentiram em casa. Já eram duas ou três mesas juntadas, sobre as quais bailavam garrafas de Brahmas e pratinhos de sanduíches.

Já era tardinha, tipo quatro da tarde, quando Zezé chegou, a pé, pela General Osório. Eu não vi, pois estava de costas para a rua, mas Tadeu, sentado à minha frente, viu e convidou-a pra sentar ao seu lado, claro, pois eram velhos amigos.

Papo vai papo vem, descobri que ela era professora de inglês, tinha morado um ano em Londres, morava sozinha num apartamento próprio perto do Mercadão, tinha 39 anos e ganhava mil e duzentos reais por mês. 

De mim ela soube que estava com 45 anos, era jornalista, trabalhava na Sanasa, ganhava um pouco mais que ela, já tinha sido casado e tinha uma filha que iria fazer 14 anos dali quatro meses que morava com a mãe. 

A mãe da minha filha, por incrível que pareça, causou o primeiro interesse da Zezé em mim. É que, no papo que rolou, acabei falando dela e falei bem, mesmo porque não havia motivo pra falar mal. Zezé achou interessante um ex-marido que não amaldiçoa a ex-mulher.

Eu também me interessei por ela e quando a noite chegou, já éramos velhos conhecidos descobrindo que tinham muitas coisas em comum. Por exemplo: ajudamos a fundar a Tomá na Banda no Bar do Zincão (eu tenho as atas da fundação e nossas assinaturas estão próximas, o que quer dizer que estávamos quase na mesma, comendo a feijoada “beneficente”) e apesar da proximidade – nessa e em outras ocasiões que fomos descobrindo depois – nunca nos conhecemos.

Ali pela meia-noite resolvemos ir embora. A chuva era só uma garoa, mas eu me prontifiquei a dar carona pra ela. Detalhe: eu não tinha carro. Acabamos descendo a Júlio de Mesquita a pé até meu apartamento e o resto é essa história que hoje faz 17 anos. E está pronta para outros 17 ou quantos essa vida louca – cada vez menos louca com o correr do tempo – nos deixar viver. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Aparição



Antonio Contente

Dez horas da manhã, luminosa manhã, na calçada em frente ao bar Giovannetti, no Largo do Rosário. De repente, não se sabe vinda de onde, a aparição. Vinte, vinte e dois anos, no máximo. Sobre o corpo um leve, quase diria diáfano vestido de seda azul feito para a carícia do corpo ante as sutilezas da brisa matinal. Alta, bem alta para mulher, 1,75, talvez 1,78. E ela, além de tudo, se move.

Anda, com os cabelos castanhos claros iluminando o tempo. Por instantes senti que deles vinha um perfume, e um perfume só é realmente bom quando temos a impressão que emerge de nossas melhores recordações de um passado remoto. Channel. Número Cinco...

Agora não eram só meus olhos, parcos olhos, que a viam. Movimentava as pernas esguias, galgas, com elegância de bailarina necessariamente russa. Isso para ressaltar o contorno calipígio nas ancas bifurcado; após, a barriguinha doce em seios maliciosamente verticais, pêras quase fartas. Setas para o céu, caminhos para o infinito, certezas para o azul, simplificação para todas as linhas que os artistas buscam em vigílias e lamentos. Grito desdobrado, subitamente, em canção.

Vai ela, no rumo da Francisco Glicério. Perseguida pelos ventos que disputavam a carícia dos seus contornos, e já meia dúzia de pessoas, que, como eu, passaram da hipnose à condição de autômatos.

Abre o sinal e ela passa em direção à Praça Guilherme de Almeida. Uma esquadrilha de pombos, talvez saída dos escaninhos dos antigos prédios da Barão de Jaguara, a acompanha em formação de alvoroço e enleio.

Fecha o sinal da Conceição, a moça para ante o devoto silêncio da já pequena multidão. Vemos que seus ombros são tostados, um bronzeado de pintura de antigas cintilações de madonas. Perfeitos no contorno da severa precisão, com charme de duas pintas num deles, talvez a assinatura de algum deus que também deu seu toque na clave de sol da singularíssima pessoa. 

Vamos todos, ela à frente, para a calçada que passa em frente ao Itaú. Os passos da aparição não se alteram, fazendo sulcos dourados num prosaico cimento que, de repente, vira Calçada da Fama. Dos olhos da criatura passo a ter apenas uma desejada certeza. Azuis. Irremediavelmente azuis, como o gesto do encanto e a canção primeva. Azul como o primeiro suspiro de Deus após ter feito a mulher, certo de que chegara à sua obra máxima. E ela estava ali, no passeio, entrando na praça em frente à Catedral. Víamos a Eva que fora depositada sobre o Paraíso. 

Não minto, do velho templo esvoaçaram anjos. Não eram mais os pombos da Barão de Jaguara e sim anjos, dos altares e dos púlpitos saídos, em formação de auréola e respeito à beleza. Luz a luz, louro sol sobre trigal em festa. 

Os cabelos bons são aqueles que se ajeitam ao desalinho. Vento dos arcanjos, sopro dos santos, os fios beijavam a testa da aparição acariciando não só a ela, porém à manhã inteira. Diria que os que agora acompanhavam a criatura eram centenas. Não um exército de famintos, sim um exército de alimentados.  

Caíra sobre nós o manjar dos céus, se abrira o mar ente o gesto de Moisés pasmo pela beleza e pelo seu melhor fruto, antecipação de um decálogo das perfeições mais que perfeitas. E em todos nós se consubstanciava um silêncio posto na sua versão de absoluto.  

Em tal instante, no centro mais movimentado da cidade, nenhuma buzina, nenhum motor roncando, nenhum alarido de vozes ou contidos suplícios. Só os passos dela, da aparição, ecoando na calçada. Sandália dourada, apenas duas ou três tiras contendo os pés de Cinderela às vésperas do casamento com o príncipe.  

E então nós, os hipnotizados, éramos milhares.

Raio absurdo do céu, catástrofe apocalíptica mandada do infinito, de repente um dragão a absorveu. Revelado na sisudez de um velho prédio quase na esquina da Ferreira Penteado, a boca transformada em porta a levou. O suspiro da multidão se ergueu com pasmo e desesperança. Campinas, dez e meia da manhã. Uma manhã que, afinal, até hoje não consigo saber se realmente existiu. Apesar do perfume que ficou, para sempre, no ar... no ar...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Uakti em Bê Agá



Edmilson Siqueira

Zezé e eu estamos indo amanhã, sexta-feira, 16 de novembro, para BH. Não, não conhecemos BH e vamos conhecer só um pouco, já que a gente volta no sábado, começo da noite. No meio dessa correria, um show do grupo Uakti interpretando Beatles. Pra quem conhece o Uakti já pode ir imaginando o que eles fizeram com as canções dos Fab Four. Não, não pode não, é melhor ouvir alguma coisa antes. Tem na rede, no Youtube, um making of muito bom. É coisa de arrepiar quem, como eu, foi amante dos Beatles e dos Rolling Stones e hoje também curte boa música instrumental, jazz principalmente.
O Uakti é um desses fenômenos que, acho eu, poucos países no mundo podem produzir. Um grupo de 4 em que só três tocam. O outro compõe e cria instrumentos. Sim, isso mesmo: cria instrumentos. Não sei os nomes deles todos (dos instrumentos, aliás, nem dos músicos) mas Zezé foi amiga do criador, Marco Antonio Guimarães, e me contou alguma coisa a respeito dessa figura. Ele via música em qualquer lugar. Olhava para um desenho de ladrilhos na parede e cantarolava internamente o som que eles estavam exprimindo. Um dos instrumentos é feito com tubos de PVC de vários tamanhos para dar notas diferentes. Usavam um chinelo havaiano para bater na boca dos tubos - e o som saía grave e bonito. Hoje já não usam mais o prosaico chinelo e sim um treco próprio, eu vi no making of, e o som continua magnífico.

Tenho alguns CDs do grupo e já fui a um show deles no tempo em que o Centro de Convivência existia. Emocionante é o mínimo que se pode dizer do som e da música que eles fazem a partir daqueles estranhos instrumentos. Claro que tem flauta, violão, contrabaixo, convidados e sei lá o que mais, afinal os instrumentos criados não estão ali por puro exotismo e sim porque eles fazem um som diferente que combinam com os sons tradicionais e o resultado é de deixar qualquer um pasmo.
Antes de iniciar esse parágrafo fui dar uma olhada novamente no Youtube. Tem bastante coisa deles lá, inclusive Here Comes the Sun inteirinha. E, claro, o making of que citei no início. Há uma mulher no grupo nessa música que, quando assisti em Campinas não estava lá. Mas os outros são os mesmos. Aliás, há 30 anos. E os instrumentos usados nessa música - você pode conferir no fim do clip - são os seguintes: marimba de vidro, marimba d’angelin, grande pan e darbuka. Estranho né? Mas o som sai limpo, bonito, dando uma vida nova a uma música que deve ter tido centenas de gravações por aí. Quer ouvir? É só clicar no link: http://www.youtube.com/watch?v=8mPnIEVis88. E na página que abre tem mais Uakti, gravações mais antigas, inclusive uma sublime da Bachiana Brasileira nº 5, que tive a felicidade de ouvir no show aqui em Campinas e tenho em CD. Vale a pena.

Então fica assim: amanhã de manhã embarcamos na Azul em Viracopos, descemos no Confins e vamos prá Bê Agá, curiosos por conhecer um pouco da capital mineira e excitados pelo show que une o talento indiscutível de um grupo que não tem paralelo no mundo com a música que mudou o mundo pra melhor. Sábado a gente tá de volta, com o CD novo na mala e lembranças formidáveis na cabeça.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O primeiro jornal a gente não esquece

Edmilson Siqueira

Acabei de escrever um post sobre o Jornal da Tarde que nos deixou nesta semana e já tenho assunto para outro post na mesma linha: no próximo domingo chega às bancas a última edição impressa do Diário do Povo, o jornal que mais tempo viveu em Campinas. Justamente nesse 2012 ele faria – ou já fez – 100 anos. Um século no qual passou por todas as fases possíveis da imprensa, do velho chumbão à era da informática.
Eu entrei nele em 1977, pelas mãos do advogado Antonio Augusto Chagas, amigo de Romeu Santini que era diretor de Redação à época. A sede – redação, oficina, tudo – ficava ali na César Bierrembach, entre a Dr. Quirino e a Luzitana, ao lado do Sindicato da Fepasa. A redação tinha 3 telefones, mais um exclusivo do diretor. Ficavam numa bancada e a gente pegava o que estivesse livre. Quando tocavam, quem estivesse mais perto atendia. De terça a domingo ele era feito no chumbão mesmo. De segunda havia uma edição extra em offset.  
Não era jornalista, quer dizer, não tinha diploma, mas me virei bem. Tanto que um mês depois de entrar, comecei a cobrir política que, naqueles anos de “abertura” – o general de plantão, Ernesto Geisel dizia que havia uma distensão política, lenta e gradual, no seu governo – era a principal editoria, depois da de Esportes, claro.
Entrava por volta das 13h, pegava a pauta que haviam deixado na minha máquina de escrever e ia pra Prefeitura. Voltava no começo da noite e, duas vezes por semana, escrevia até às 20h e voltava à Anchieta 200, só que agora no espaço da Câmara de Vereadores para cobrir a sessão. Tivesse ou não sessão, eu era ó último repórter a sair, onze e meia, meia-noite, por aí. Dia seguinte tinha curso de Sociologia na Unicamp, quarto semestre. Durou um mês a aventura de ir dormir à uma da manhã e chegar na Unicamp às oito. Como precisava trabalhar, deixei o curso de lado. Entrei na PUCC só em 81 e aí conclui o curso de Jornalismo.
Essa minha primeira passagem no Diário durou pouco também. Uma revista nova, de Jundiaí, sobre economia, queria se expandir para a região de Campinas e me contratou. Fiquei quase dois anos por lá. Mas o Diário foi o início de tudo. Conheci Zaiman, Gilberto Prato (Betoca), Flávio Lamas, Cidinha,  Saviani, Contente, Graça Caldas, Neldo, Nerivelton, Marciano, Nelson Chinaglia, Teresa (nem todos do Diário) e outros que não me lembro, nesses poucos meses que passei por lá em 1977. Foi minha escola real inicial, eu que nunca havia sequer entrado numa redação. Foi ali que tomei contato com laudas, pautas, negativos, fotos, matérias, retranca, reportagem, coletiva, exclusiva, em off, em on, chumbão, offset, abre, lead e toda a linguagem atinente à profissão.
Ao Diário, que se vai centenário, devo as primeiras lições, as primeiras matérias assinadas, os primeiros cacoetes, as primeiras responsabilidades de derrubar uma autoridade apenas com uma reportagem bem feita.
Mas devo muito mais. Em novembro 1982 deixei a reportagem da Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes) e voltei para o Diário do Povo, então já instalado no prédio do falecido Jornal de Hoje, ali no Trevo da Anhanguera. Fui contratado como editor. Fazia Nacional e Economia até por volta das 20h e depois ia pra “mesa de fechamento” ajudar na edição local. Cesinha, Marcos Vinicius, Serginho e eu pegávamos a produção diária dos repórteres para enfiar nas páginas locais. Além disso, eu passei a assinar uma coluna que revezava com Zeza Amaral – três dias da semana ele, três dias eu.
Essa segunda passagem foi muito gratificante. Além de aprender a editar – nós mesmos diagramávamos, o jornal vivia numa pindaíba de dar dó e nem tinha diagramador – ter uma coluna tri-semanal foi do cacete. Ali eu podia escrever o que quisesse, a censura era só a do regime militar que estava nos estertores. Em 1984 houve a campanha das Diretas Já, com o Brasil inteiro se mobilizando para que uma emenda que determinava eleições diretas para presidente na sucessão do último general (João Figueiredo) fosse aprovada no Congresso. Escrevi várias colunas sobre o assunto e a última foi convocando todo mundo para o Largo do Rosário, para um ato de vigília no dia da votação da emenda em Brasília.
Mas a ditadura ainda estava forte. Fecharam Brasília e ninguém podia noticiar, por rádio ou televisão, o que estava ocorrendo por lá. E Largo do Rosário lotado para comemorar a volta das eleições diretas,  sem saber o que estava acontecendo na capital do país. Só que as agências de notícias – Estado, Folha, JB – estavam abastecendo os jornais normalmente. As rádios locais estavam proibidas de noticiar qualquer coisa referente à votação, mas os jornais – que só iam sair no dia seguinte – estavam recebendo tudo. Foi aí que alguém teve a ideia de fazer uma ligação direta entre a redação do Diário do Povo e o equipamento de som armado no palanque do Largo do Rosário. Botaram um rádio e um microfone ao lado das máquinas que recebiam as notícias e aí surgiu outro problema: quem iria falar no microfone da Redação para o povo do Largo do Rosário? Naquele momento eu era o único ali que tinha trabalhado em rádio. Sobrou prá mim, claro. E fomos à luta: separávamos as notícias que chegava das agências e as transmitíamos para o Largo. No retorno do som do largo eu percebia a reação de aplauso ou vaia às notícias transmitidas. A cada novo deputado ou senador que chegava e anunciava voto a favor das diretas, todo mundo aplaudia. Quando a notícia era contra a emenda dava para ouvir não só a vaia, mas alguns palavrões também.
Até que anunciei, por volta das 22h, o resultado da votação: a emenda Dante de Oliveira, das Diretas Já, havia sido derrotada pelo plenário e seria arquivada. Eu frequentei muito campo de futebol na vida, mas jamais tinha ouvido, de uma só vez, tanto palavrão quanto no momento em que dei a notícia.

No dia seguinte o jornal fez uma reportagem sobre o “furo” que demos na censura e até eu fui entrevistado sobre o papel de locutor que acabei exercendo e, por força das circunstâncias, dando a notícia triste do fim do sonho das diretas já.  Mas a política é fogo: a oposição conseguiu eleger Tancredo Neves e, assim, adentrávamos, solenemente, na era democrática, dando um pontapé no traseiro da ditadura. Pena que Tancredo morreu antes de assumir e tivemos que engolir Sarney por cinco anos. Mas democracia é assim mesmo: só melhora se for constantemente praticada.
Fica aqui esse pequeno depoimento – há muito mais a contar – sobre o Diário do Povo que sairá às ruas pela última vez nesse domingo. Vai sobreviver virtualmente na rede. Para a nossa geração não  é a mesma coisa, mas eu aprendi, há muito tempo, a não brigar com o progresso.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

JT: *04/01/1966 - + 31/10/2012





Edmilson Siqueira
É bem provável que, em 4 de janeiro de 1966, eu tenha comprado o primeiro exemplar do Jornal da Tarde. Eu morava na Vila Itália, um trecho delimitado por duas linhas de trem entre o Bonfim e a Vila Teixeira. É bem provável porque eu já o lia antes, não como JT, claro, mas como a Edição de Esportes do Estadão, apelidada de Estadinho, que circulava às segundas-feiras e era vendida separadamente.  Eu gostava da modernidade de sua diagramação (nem conhecia essa palavra, acho eu), das grandes fotos e, principalmente, do texto moderno. Não sabia que aquele jornal sobre futebol era o laboratório onde estava sendo urdido o Jornal da Tarde.

Em 1966 aconteceram grandes coisas. No meio do ano, por exemplo, fui passar as férias de julho em Rio Preto e foi lá que eu ouvi a seleção de futebol ganhar o primeiro jogo na Copa do Mundo da Inglaterra, por dois a zero da Bulgária. E perder os outros dois, voltando pra casa naquela que foi talvez a pior passagem do Brasil nesse torneio. E estavam lá Tostão, Jairzinho, Gerson, Garrincha e Pelé.

Mas o JT seguia primoroso: uma grande equipe, talentos esbanjando textos e fotos, criatividade a cada nova capa, a cada nova edição. Eu adorava ler algo daquele jeito, moderno, antenado com a nova realidade brasileira.
Nova realidade brasileira? Peraí. Há dois anos um governo eleito – era o vice que estava no poder porque o titular, entre uma talagada e muitas outras de uísque escocês, renunciara – havia sido deposto pelos militares e estávamos caminhando para uma ditadura. Que só iria se confirmar mesmo, dois anos depois, em 68, quando um Ato Institucional (o tristemente famoso AI 5) acabou com o que restava de liberdade política e social no Brasil.
Com a censura comendo pelas tabelas, o JT, na melhor tradição dos Mesquitas, não se entregou. No lugar das reportagens e artigos censurados colocava receita de bolos. No Estadão, ainda sisudo, mas também disposto a enfrentar o mau humor militar, trechos de Os Lusíadas e de sonetos do grande poeta português. No dia em que o AI 5 foi enfiado goela abaixo dos brasileiros, os milicos proibiram até de dar a notícia. No lugar dela, o JT inovou mais ainda: ao invés da receita de bolo, botou um anúncio de um programa que estreava na Rádio Eldorado, do mesmo grupo: “Agora é Samba!”, estampava o jornal em letras bem grandes na primeira página.
Pelo JT – e depois pelo Pasquim – foi que  acabei adquirindo o gosto pelo jornalismo opinativo que mais tarde iria exercer. Livre das amarraras do texto empolado, do tal do português casto, podíamos escrever mais à vontade, retratar a realidade sem retoques e exercer o fascinante jogo de se exprimir com liberdade. Pena que a ditadura atrapalhava, mas a semente estava ali no JT e iria frutificar. Enquanto o Pasquim inovava no atrevimento e no texto de grandes cabeças – Ivan Lessa, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Tarso de Castro – e no traço de humoristas geniais (pelo menos à época) – Jaguar, Ziraldo, Henfil, Fortuna – o JT nos ensinava a ver a realidade como ela era, em textos primorosos, em reportagens sensacionais e em fotografias que ultrapassavam o limite da simples reportagem.Comprei o  em todas as bancas possíveis e quando o dinheiro dava – eram outros tempos, vivia, até 18 anos, da parca mesada. Depois, trabalhando, já podia me dar ao luxo de adquirir diariamente meu exemplado do JT, menos aos domingos, que era, aliás, outra inovação: no dia de maior leitura, não havia JT. Mas ele imperava nas bancas de segunda-feira, numa época em que não havia jornais nesse dia. E mesmo depois, quando houve, o JT continuou imbatível por um bom tempo.
Acho que li o JT até fins dos anos 70, não me lembro bem. Tornei-me jornalista em 1977, lá no Diário do Povo da César Bierrembach e, tenho certeza, muito do que pude escrever veio do que guardei do grande “vespertino” que hoje – dia 31 de outubro de 2012 – desaparece, engolido pela tecnologia que vai engolir, em pouco tempo, todos os outros jornais. Num mundo de tablets e celulares que levam a informação instantânea – o tal do “tempo real” – para você em qualquer lugar do mundo e na língua que você escolher – não haverá mais mercado para jornais de papel feitos de árvores.  Mas ficará a lição que o JT deixou nos seus 46 anos de vida: há sempre lugar para a inovação, para a ousadia e para a inteligência.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Saga galinácea


Edmilson Siqueira

Meu amigo Antonio Contente contou sua história de ladrões de galinha, depois revelou o galo que tanto o entristeceu na adolescência e eu – continuando a saga galinácea do blog – vou contar a história da galinha que tivemos, ainda na Vila Industrial, lá pelos idos dos anos 50. Nada combinado, claro, mas a vida é assim mesmo.
Morávamos numa casa com um quintal que seria considerado generoso para os dias de hoje: caberia outra casa nele e ainda tinha, lá nos fundos, mais uma casa de três cômodos onde morava uma família também.  

O quintal tinha grama – o quarador da dona Carminha – tinha varais, um pé de aloma, um de cana e uma outra arvorezinha que foi ficando menor à medida que crescíamos, mas, na minha infância, era enorme.  
O pé de cana e o de aloma ficavam num canto, perto do muro que nos separava do vizinho do lado e entre eles foi construído um cercadinho, quase um galinheiro, para abrigar a penosa que seu Jamil comprou de um homem que passou na rua. Seu Jamil era assim: não podia passar alguém vendendo algo que ele comprava, para desespero da dona Carminha: “O que vamos fazer com essa galinha?” Ao que Jamil respondeu: “Uma canja, ué?”

- Mas quem mata a coitadinha?, perguntou, aflita, Carminha.    
-Sei lá, é só cortar a cabeça dela.

Não me lembro bem se o diálogo foi esse, mas deve ter sido parecido. O fato é que meu pai e eu nos enveredamos pela construção do abrigo para a penosa e, com uma tela de arame e umas estacas ele ficou pronto. Pequeno, pois a ideia era abrigar a galinha somente à noite. Dentro dele, uma caixa de madeira, grande o suficiente para ela se abrigar das intempéries.  Durante o dia ela teria o quintal inteiro para ciscar.
E assim foi. A galinha ainda não tinha atingido sua, digamos, idade adulta. Bem alimentada – além dos bichinhos do quintal todo, dávamos milho a ela – cresceu e começou a botar um ovo por dia, cuja tarefa de verificar no ninho se o produto já estava lá, me foi dada e eu a realizava com a maior seriedade.

Acho que já fazia um mês que a galinha vivia por ali. Era comum vê-la beirando o tanque, bicando farelos de pão no chão da cozinha e até fazendo pequenas incursões pela sala, onde era recebida com “olás” pela família.
Até que um dia meu pai chegou do trabalho e, como estava de folga no dia seguinte, foi logo ordenando para dona Carminha: “Amanhã quero comer uma canja de galinha”. Isso significava simplesmente que minha mãe teria de fazer a canja. E significava também que o reinado da galinha que passeava pela casa toda e anunciava com altos cacarejos cada vez que cometia um ovo, tinha chegado ao fim.

Quando minhas irmãs chegaram da escola, à tardinha, minha mãe contou pra todo mundo: “Seu pai quer comer uma canja amanhã. Vamos ter de matar a galinha”.
As frases caíram com se ela tivesse anunciado a sentença de morte de um membro da família. Minhas irmãs fizeram cara de choro e eu não fiquei só na cara: chorei mesmo, do alto dos meus seis ou sete anos. “A gente não pode comprar uma galinha já morta?” Não, não podia, mesmo porque naqueles tempos de parcos ganhos, gastar dinheiro com uma coisa que a gente já tinha em casa era impensável.

Mas quem ia matar a galinha? Minha mãe já havia dito que não sabia. A sugestão do meu pai de simplesmente cortar-lhe a cabeça era inviável, já que, diziam, o sangue se perde, a carne fica ruim ou sei lá o quê.
A solução foi recorrermos à sábia dona Noêmia, a vizinha, cuja idade era um mistério para todos. Diziam que ela era filha de escravos e até que ela própria só não foi escrava porque nasceu quando já vigorava a Lei do Ventre Livre, antes de 1888. Filha de escravos ou não, o fato é que dona Noêmia era prática nessas coisas de quintal e galinhas. Pegava a bruta num segundo, com uma agilidade surpreendente para seu corpo já arquejado e grande, colocava-a no colo e, num átimo, dava uma espécie de nó no pescoço da penosa que, imediatamente, tombava a cabeça, inerte, sem um estrebucho sequer.

Assim deve ter sido com a nossa galinha que foi entregue, quase às lágrimas, por dona Carminha para dona Noêmia. No jantar daquele dia foi servida uma majestosa canja que fez seu Jamil repetir o prato três vezes. Dona Carminha comeu pouco – ela não era de comer muito mesmo – mas eu e minhas irmãs, ao nos deparamos com aquele caldo e aqueles pedaços de carne branca, não conseguimos nem experimentar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Menino, galo e tempestade






Antonio Contente

Nos velhos tempos em que se acordava com o canto deles, eu tive um galo. Foi em Mocajuba, cidadezinha em beira de rio no âmago da Amazônia pré-destruição, anos antes da minha adolescência. Karen Blixen, aliás Isak Dinesen, começa seu famoso “Out of Africa”, que deu belo filme com Robert Redford e Meryl Streep, afirmando: “Eu tive uma fazenda africana”. Pois eu, mais modesto, se um dia contar algo longo sobre a meninice, começarei dizendo que, um dia, tive um galo. Pois só assim, repetindo a autora dinamarquesa, poderei descobrir que todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas. 

Ora, amigos, vamos falar a verdade, poucas coisas podem alegrar tanto a vida de um menino como, de repente, ser presenteado com um galo. Quando o peguei, ofertado por um tio, nem queria acreditar. Era uma ave robusta, de penas avermelhadas que soltavam faíscas ao bater do sol. De quebra exibia crista que caia para o lado; ao ciscar a terra em busca de bichinhos, os colhia com bicadas certeiras, plenas de lampejos e cintilar de raios. 

Assim, naquele mês de férias de fim de ano na cidadezinha, tudo, pra mim, girou em torno do galo. Pessoalmente ia à vendinha pegar o melhor milho e invariavelmente, nos cafés da manhã, enfiava no bolso um naco de pão que triturava depois para o meu amigo, batizado como “Gigante”. 

O dramático, no período, foi a madrugada em que acordei com o trovão de uma das imensas chuvas no chamado inverno amazônico. Não tive a menor dúvida em escapulir da rede e, munido de potente lanterna que sempre ficava na mesa da cozinha, me enfiei no quintal para verificar se a linda ave mantinha-se segura no barracão que servia de galinheiro. Acabei todo molhado, mas constatei que “Gigante” permanecia sequíssimo. 

O que passou a me preocupar, mais adiante, acabou por ser o óbvio: no fim das férias, o que fazer com meu faiscante companheiro? Que barreiras teria que enfrentar para levá-lo comigo pra Belém, a fim de continuar a tê-lo no quintal da casa paterna? Resolvi que pensaria melhor no assunto quando chegasse a hora. 

E ela, naturalmente, chegou. Com surpreendentes lances, aliás, pois a única aparente dificuldade foi o como, digamos, embalaria “Gigante“ para transportá-lo no barco que fazia a viagem de dois dias até a Capital. De resto quem resolveu tudo fui eu mesmo. Peguei um par de grandes paneiros e os coloquei com as aberturas uma contra a outra. Amarraria com bom barbante e pronto, dentro iria o lindo galo que guardava, pra mim, a beleza de todas as auroras que anunciava com seu canto. 

O nosso barco era o “Capitânea”, imponente nome para um flutuante de modestas dimensões. Apenas uma cabine de passageiros, motor barulhento e comprido leme atrás, empurrado para um lado e outro na busca da direção certa. No dia do embarque instalei “Gigante” na proa, junto aos pesados tambores de combustível. Partimos. 

Mas, como disse, era inverno na Amazônia, a exageradamente líquida estação das chuvas, que costuma conduzir no âmago impressionantes temporais. Um dos quais, à noite, nos pegou na travessia da Baía do Muritipucu. Mar de água doce com ondas de mar salgado, a açoitar com violência. Desesperado, tentei sair para trazer o galo pra a cabine, porém fui contido. Por fim, de madrugada, na calmaria normal após as tempestades, saí de mansinho para verificar, com o coração em frangalhos, que a armadura de talas armada para levar “Gigante” tinha sido arrastada pelas ondas. Derramava-se então sobre a superfície líquida imensa, sem terra à vista, esparramado luar de absolutamente prateadas cintilações. Um tripulante do barco veio e, solidário, pousou a mão no meu ombro. Contendo algumas lágrimas, disse ao moço: 

- Nunca mais, na vida, vou ter um galo...

As estrelas que nos cobriam testemunharam. De todas as previsões que fiz sobre mim mesmo, aquela foi a única que não errei.

sábado, 15 de setembro de 2012

Oi, tudo bem?



Edmilson Siqueira


Ganhei um celular para usar no trabalho. Simplesinho, feito para fazer e receber chamadas e mensagens. Ah, serve pra ver a hora e a data também.  É da Oi.
Sexta-feira, começo de noite, recebo uma mensagem da Oi:

 -Promocao Relampago Oi: Quer ganhar R$ 75,00 em ligacoes locais para OI e Fixo? Recarregue R$ 15,00 até 21/09/12. Não perca a oportunidade e recarregue agora!
Como o treco estava sem crédito e tinha virado, como diz o pessoal lá do trabalho, “pai de santo” porque só recebe ligação, pensei: “Vou botar R$ 15,00, ganho R$ 75,00 e acho que dá pra usar por um mês, mais ou menos.

Sabadão, vou fazer minha fezinha na mega e resolvo recarregar o bichinho. Perguntei pra moça do guichê como é que fazia. Ele me deu um papelzinho e pediu pra escrever o número do celular. Escrevi, ela pegou, foi lá dentro e, um minuto depois, voltou e me deu um papel dizendo que estava feito. Nesse instante o celular tocou avisando que tinha uma mensagem:
- Parabéns! Você acabou de ganhar R$ 75,00 em ligacoes locais para Oi e Fixo, referente a Promocao Relampago Oi, validos até R$ 25/09/12.

Como é que é?  Só até dia 25 próximo? A primeira mensagem não dizia que tinha prazo de validade. Mas antes que eu pudesse dizer “filhos da puta”, apareceu outra mensagem:
- Oi. Seu Credito Especial foi debitado. Seu saldo e de R$ 10,29.

Que porra de crédito especial? Eu nunca pedi nada. E se eu tinha R$ 75,00 e agora só tenho R$ 10,29, significa que eu tinha gasto R$ 64,71 do tal crédito especial? Quando, se o telefone estava sem crédito? E que débito é esse se o telefone nem fazia ligações, só recebia?
Mas antes que eu pudesse dizer de novo “filhos da puta”, apareceu outra mensagem:

- Oi, seu saldo e de R$ 75,00 para Ligacoes Locais Oi e Fixo com data de validade ate 25/09/2012.

Bom, resolve o problema do credito especial, mas não resolve o da data de validade. Tenho R$ 75,00 de crédito no telefone, mas tenho de usar em 10 dias. Mas isso é com ou sem o crédito especial de R$ 10,29?  
Como estava no Shopping Iguatemi, resolvi entrar numa loja da Oi e perguntar para um rapazinho que estava por ali e que tinha cara de quem entendia tudo de mensagens da Oi.   

Ele pegou o celular na mão, digitou alguma coisa e me disse: “Tá recebendo mensagens”.  E não é que estava mesmo?
A primeira dizia:

- Seu saldo promocional e R$ 15,00 para ligações locais para oi e fixo e DDD oi e oi fixo com data de validade ate 15/09/2012.
Ué? Então tenho R$ 15,00 de saldo promocional para ligar pra isso e aquilo até dia 15 de setembro???  Mas dia 15 de setembro é hoje, porra!!!

Antes que eu pudesse dizer mais uma vez “filhos da puta”, apareceu outra mensagem:
- Voce realizou R$ 20,00 em recarga no mês anterior e R$ 15,00 no mês atual. Nao fique sem bonus. Ligue grátis *313 e saiba quando acaba sua promocao.

Olhei pro rapaz com uma cara de bônus e fiquei esperando ele me explicar. Atencioso, me disse que eu vou sendo avisado de bônus de R$ 15,00 até acabar os R$ 75,00 ou algo parecido. Que seu não usasse no período ... aí perde.  “Mas se o senhor quiser fazer um plano legal, eu tenho aqui, até dá R$ 4 mil de bônus de Oi pra Oi e fixo e...
“Não quero não, obrigado. Esse telefone é da firma, não vou mexer em nada”.

E não vou mesmo. Vou deixá-lo quieto num canto, esquecer o crédito que botei e, juro por Deus, não vou ler mais nenhum recado da Oi, porque, com certeza, vou sair dizendo uma porção de filhos da puta por aí...


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Saudade dos ladrões

Antonio Contente
 
Há um galo que todas as madrugadas, com seu canto, deposita em minha mente e meu coração o doce milagre das auroras. Seu som vem dos remotos quintais que ainda resistem no meu bairro, quintais com muros cobertos de heras. Mas o que queria contar é que, dia desses, no acordar tão cedo, fui, de repente, acometido de funda saudade. Saudade dos ladrões. Sim, amigos, dos ladrões de galinhas, furtivos vultos que cobriam com um halo de mistério as sombras dos quintais de antigamente. E que hoje são símbolos da mais cândida honestidade.

Nos meus anos de repórter de polícia na falecida “Ultima Hora”, de São Paulo, começo dos 60, cruzava com todo tipo de gente. Certa noite, no plantão do Pátio do Colégio, o camburão chegou com um prisioneiro. Fazia frio naquela época, frio pré-aquecimento global. O detido era um sujeito magro, ombros pontudos, bigodinho honesto. Nós, os jornalistas, cercamos o homem para saber o que ele havia feito. Meio foca, eu anotava tudo. O sujeito fora preso no quintal de um casarão no bairro da Bela Vista ao tentar roubar umas galinhas.

- Mas por quê? – indaguei.

- Para fazer uma canja – ele respondeu – tenho uma filha doente em casa.

Imediatamente todos os repórteres que ali estavam se mobilizaram junto ao delegado de plantão; não apenas conseguimos libertar o meliante, como até o levamos ao mercadão da Baixada do Glicério. Onde compramos duas robustas penosas, para a tal canja.

De lá para cá os ladrões de galinhas, estes símbolos da pureza, foram sumindo. A própria palavra “ladrão” que, acoplada a eles possuía um sentido vocabular meigo, se tornou áspero com o passar dos anos. Hoje os ladrões podem ser senadores, ex-senadores, deputados, governadores e ex-governadores, presidentes e ex-presidentes, isso sem falar em juízes e variados lalaus. Os ladrões de galinhas viraram, pela modernidade dos assaltos aos bolsos dos contribuintes, os São Francisco de Assis dos alabastrinos pecados.

Sim, mas eu falava do romântico galo que canta perto da minha casa, num bairro onde resistem os quintais. Eu mesmo tenho um, pequeno, é verdade, porém suficiente para os movimentos e os gestos. Com a súbita saudade que senti dos afanadores de penosas, penso em colocar umas duas nos meus parcos metros quadrados. Vou cevá-las e esperar. Que em alguma noite de lua eu seja benzido pela presença, entre os muros, de um romântico ladrão de galinhas. E se, afinal, tiver a sorte de pegá-lo com a boca na botija, quero não apenas cumprimentá-lo. Quero doar a ele as aves que, certamente, estarão gordas, e agradecer por sua presença. Meu Deus, abençoe a meiga e doce honestidade de um pequeno, romântico meliante de colarinho sujo, negro. Talvez até me ajoelhe aos pés do visitante esperado. Quero beijar suas mãos calejas pelo trabalho árduo e, em lágrimas, lhe dizer:

- Perdão por não conseguir penosas melhores, meu amigo. Bendito era este país na época em que ladrão, por aqui, só os que afanavam galinhas... Deus o abençoe. Que Deus, na sua infinita bondade, o abençoe, meu honesto homem, meu maravilhoso compatriota. Acredite, sinto um enorme orgulho de tê-lo aqui, diante de mim...

sábado, 11 de agosto de 2012

A moça da tarde


Antonio Contente

Foi então que, meio na fossa, resolvi, naquele Verão, ir para uma cidadezinha na região de Serra Negra para procurar, como se dizia antigamente, meu eixo. Instalei-me numa pousadinha barata e, em poucos dias, estava relativamente bem inserido num pequeno grupo que, todo fim de tarde, ia tomar drinques no “Ponto Chic”. Eram cinco ou seis aposentados, simpaticíssimos, que adoravam comentar sobre as fofocas do lugarejo. O que me ajudou a entrar para o grupo foi que dois dos camaradas eram leitores da coluna diária que eu então escrevia num jornal da capital, com desenho da minha cara feito pelo lendário e genial Otávio junto ao meu nome. Com as línguas sempre mais soltas depois da terceira pinga, falavam mal do prefeito, desancavam o juiz e faziam sérias restrições ao pároco. Nada mais típico.
Foi na terceira tarde do convívio esplêndido que vi, pela primeira vez, a moça. Ela vinha vindo com um vestido fresco sobre o corpo exato, os cabelos curtos tocados pela brisa e um perfil, no mínimo, de madona. Percebendo que todos se calaram quando passou, mas sentindo que de cada olhar saia uma chispa de desejo indaguei, meio a medo:

- Quem é?

- Florinha, a mulher do boticário.
A cena se repetiu nas tardes seguintes, e eu também acabei tomado pela presença da moça, a ponto de, numa das vezes, ter sentido o perfume que vinha dela. Rosas. Ela, pura e simplesmente, exalava aroma de rosas. Ao contrário da canção de Cartola roubava, no bom sentido, o cheiro das pétalas.

- Florinha... — suspirei um dia.
- Cuidado, é a mulher do boticário.

Na continuação fui captando, em frases soltas da turma, algumas informações. Uma delas: o marido curtia pela esposa uma dessas paixões arrebatadoras. E ela pôr ele, segundo todos imaginavam, pois “seu” Fadul, o tal boticário, não só tinha boa estampa como também era uma espécie de paradigma da sociedade local, pela seriedade etc. etc.. Certo dia embalado pela terceira pinguinha, caí na besteira de perguntar se Florinha nunca... Imediatamente fui fuzilado pelo olhar de todos.
- Seríssima – um gemeu.

- Mais do que santa – outro acrescentou.

Numa sexta-feira parti para reservado pesqueiro estrada acima, quase na divisa com Minas. Ao regressar, com meu eixo já devidamente em ordem, desabei no “Ponto Chic” para me despedir da turma. Fui então informado, pelo dono do bar, que há dois dias eles não apareciam. Indaguei se havia algum problema, e a resposta não poderia ter sido mais objetiva:

- Dona Florinha.
- O que aconteceu?

- Ela fugiu com um viajante que estava hospedado no Hotel Marechal.
- E quem era o galã?

- Um vendedor. Um tal de Fernando...

O curioso foi que, com bilhete comprado para voltar pra Campinas na manhã seguinte, não consegui fazê-lo. Algo dentro de mim inflava dizendo que deveria esperar a rapaziada do boteco reaparecer. Tanto que, no fim daquela tarde, me plantei na cadeira de sempre, junto da porta. Fiquei sozinho, porém tinha a impressão que, a qualquer momento, a moça da tarde reapareceria com o vestidinho leve sobre o corpo lindo, deixando no ar o impressionante cheiro de rosas que, admiti, deveriam ser necessariamente vermelhas.
Finalmente, no terceiro dia, meus camaradinhas reapareceram, cada um com a expressão mais lúgubre do que o outro. E enquanto ali estivemos, até o começo da noite, não ocorreu o menor ou mais exíguo comentário sobre a fuga da maravilhosa mulher do boticário. Porém, em todo o mundo, então, não havia ninguém que se pudesse sentir mais corneado do que todos nós. Voltei para Campinas com o eixo novamente fora do lugar.