segunda-feira, 23 de junho de 2014

Paris, Paris



Edmilson Siqueira

Nesta quarta-feira, 25 de junho, Zezé eu estamos embarcando pras “Oropas”. Ela fará uma viagem que planeja há muito, vai conhecer Findhorn, uma comunidade autossustentável na Escócia e rever sua amada Londres, com direito a visitas a Totnes e ao Schumacher College (nada a ver com o piloto campeão). Ficará 17 dias nesse périplo e depois vai se encontrar comigo em Paris, onde estarei fazendo o enorme sacrifício de esperá-la por todo esse tempo...
Mas estou tentando amenizar o sacrifício: na bagagem levo uma lista de 19 programas que recolhi na rede entre restaurantes bons e baratos, passeios curiosos longe do turismo tradicional, uma boa vasculhada em toda Montmartre (nas outras viagens faltou conhecer melhor o velho e boêmio bairro), algumas lojas que podem render boas compras sem gastar muito e jazz aos cântaros – nos bares, nas praças e shows: há pelo menos um festival muito bom e gratuito na lista, o La Défense Jazz Festival 2014, com shows três dias à noite e cinco dias às 12h. Não devo ir a todos, mas na maioria devo estar lá.
 
Mas os programas podem ficar em segundo plano diante do meu encanto por andar sem destino, tentando descobrir cantos e esquinas que podem gerar paixões momentâneas ou fotos que só eu gostarei de rever ou mesmo apenas aquela sensação de se estar numa cidade civilizada, limpa e muito mais segura que qualquer cidade média ou grande desse nosso país.

Comprei um notebook, pequeno, para levar na viagem. Ele ficará no hotel e, quando as aventuras parisienses diárias e noturnas terminarem, tentarei registrar em texto e imagens o que vi, vivi e senti. E, em registrando, postarei neste blog para deleite de meus parcos leitores. Não sei se vai funcionar, a vontade de conhecer e rever muita coisa é grande e posso nem ter forças para, depois de um dia típico, sentar-me à frente da telinha brilhante para cometer uma croniqueta.
 
Levo também uma máquina GE (sim, General Eletric) semiprofissional, 14 megas pixels, que também filma em HD, que será a responsável por captar as imagens todas que me darão saudades nos próximos anos. E um pen-drive de 8 megas para guardar tudo sem perigo de perder. Há, claro, uma prosaica e bela cadernetinha de viagem, cheia de páginas e linhas em branco para anotar o que for preciso, usando aquela velho modo de registrar fatos com uma caneta e a própria mão.

A amigos tenho dito que esta será a última vez que verei Paris. Como já passei dos 60, alguns imaginam que não terei tempo de voltar um dia, que partirei antes para o infinito do qual não voltamos mais. Digo que o motivo é mais prosaico: aposentado, vivendo de uma renda mixuruca que a previdência me paga depois de 35 anos de contribuição e mais de 40 de trabalho, vai ser difícil juntar economias que bastem para atravessar o Atlântico e pousar na Europa. A última viagem a Paris foi em 2002, por isso acho que esta é a última, mas faço uma ressalva: não deixarei de fazer uma fezinha nos jogos de azar que o governo patrocina e, se um dia, entre as ínfimas chances que eles proporcionam, a sorte me bafejar, arrumo as malas e passo o que me resta de dias, meses e anos num país onde as paisagens construídas pelo homem são belas e conservadas e onde a civilização e a civilidade imperam.
 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A maior das devastações




Antonio Contente

Naquela manhã de 1976 as coisas corriam normalmente no departamento da Nasa, nos Estados Unidos, que recebia as imagens do satélite Skylab. Súbito o funcionário que monitorava as transmissões que vinham do espaço deu um berro:
- Meu Deus do céu!
Mal ecoou pela sala silenciosa o grito macabro, todos se debruçaram sobre a mesa do horrorizado técnico. Alguns pensando que ele avistara pedra sideral imensa prestes a colidir com a Terra. Outros que detectara flotilha de discos voadores preparando-se para ataque. Não se tratava de nada disso, porém: o que o satélite acabara de detectar é que se desenrolava naquele instante, em extensa área da floresta amazônica, no sul do Pará, a maior queimada que os olhos humanos jamais tinham visto.
Não demorou muito os americanos enviaram as imagens medonhas para o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em São Paulo. Onde os tupiniquins também colocaram as mãos na cabeça. Alguém instalara sucursal do inferno numa área em que a floresta era não só absolutamente virgem, porém constituída por árvores de madeiras nobres, algumas com centenas de anos.
Bom, mas o IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, hoje Ibama) achou que a empresa que cometeu a barbaridade deveria ser multada. E foi, com penalidade jamais  aplicada. Até porque, segundo dizem, seria maior do que o empreendimento que estuprava a jungla.
 
Pois é, isso tudo, que faz parte da tenebrosa história dos desmatamentos na Amazônia, andou sendo relembrado no momento a propósito do recente lançamento de um livro autobiográfico do ex-executivo alemão Wolfgang Sauer, que durante muitos e muitos anos dirigiu a Wolkswagen em nosso país. Companhia esta responsável por quase matar do coração, já lá se vão 37 anos, os técnicos da Nasa.
Bom, esta parte do desmatamento não aparece bem na obra acima citada, cujo nome é “O Homem Volkswagen – 50 anos de Brasil” (Geração Editorial, 527 páginas). De todo modo, está no cartapácio a maior parte de como a empresa que fabricava e fabrica ótimos carros resolveu investir na Amazônia. Para isso, Sauer esteve em 1973 com o ministro Rangel Reis, que deu o aval para o projeto da superfazenda para criação de bois, esperando levar fugitivos da seca nordestina para lá. Mas o que Sauer realmente queria, segundo voz corrente hoje, era solidificar seu nome, com o sucesso da criação de bovinos, para chegar à presidência mundial da Volks. A empresa, então, comprou 140 mil hectares, no sul do Pará, para a instalação, num primeiro momento, de 60.000 bois.
O resultado disso tudo foi que o susto do pessoal da Nasa no passado de repente se transferiu para a cúpula da Volks em Berlim quando, em função de queimada, talvez nunca igualada até hoje por seres humanos, mobilizou o Partido Verde germânico, atiçando protestos dos ecologistas do mundo inteiro, inclusive do Brasil. O pessoal, em passeatas por inúmeras cidades em vários continentes, começou a berrar que a Volks estava empenhada em destruir a Amazônia e, com isso, segundo afirmavam, “eliminar o oxigênio do planeta”, pois o fogaréu era tudo que o demônio queria para tirar da selva do Norte do Brasil sua condição de “pulmão do mundo”.
Quando os dirigentes da Volks perceberam que a pregação pelo boicote dos seus carros crescia a olhos vistos, trataram de se desvencilhar a fazenda brasileira, o que degenerou em articulações complicadas que levaram o projeto megalomaníaco para o buraco. Era mais um que falhava na Amazônia, como o que já contei aqui a respeito da Fordlândia que fez Henry Ford rasgar, junto às barrancas do rio Tapajós, nos anos 20, 30 e 40, algo como bem mais de um bilhão de dólares a valores de hoje.
 
Voltando ao livro de Wolfgang Sauer. Naturalmente o autor é apresentado como empreendedor de alta estirpe, o que realmente revelou através de suas ações na Volks brasileira. Mas o fato de ter, como diz o vulgo, quebrado a cara no projeto de colocar ruminantes bovinos para mugir, aos invés de construir automóveis, de alguma forma mexeu pelo menos com  um pedacinho da sua imagem de eficiência. Mácula, aliás, muito bem posta em artigo do jornalista Lúcio Flávio Pinto, no seu excelente “Jornal Pessoal”, editado em Belém, quando diz em trabalho sobre o tema focalizado nesta crônica: “Talvez Wolfgang Sauer tenha sido visionário no polo industrial paulista, o maior do continente. Na selva amazônica ele foi um devastador”.

sábado, 29 de março de 2014

Há meio século


Edmilson Siqueira

Eu tinha 12 anos, estava na segunda série B do ginásio no Colégio Estadual Culto à Ciência. Ali pelos dias de fim de março ou começo de abril, cheguei à escola com uma vaga esperança de que não haveria aula. Antes de sair de casa, tinha ouvido no rádio que estava acontecendo uma revolução (no rádio não se falava em golpe) e que havia movimentação de tropas do Exército pra cá e pra lá.
Minha mãe não me recomendou nada além dos conselhos normais, cuidado no ônibus, presta atenção nas aulas etc., ela mesma totalmente alheia aos acontecimentos. Aliás, o rádio ficava ligado para nos informar a hora a todo momento – era o programa A Hora do Trabalhador, “uma hora de alegria pra quem sua todo dia”,  que começava às 7 da manhã,  meia hora depois de eu sair da cama, morrendo de sono, como sempre.  Naquele dia o rádio deu notícias mais vetustas, o locutor falando com a voz mais encorpada e eu percebi que havia alguma coisa diferente.

“Dona Celina, vai ter aula hoje?”
“Claro que vai, menino. A confusão é lá no Rio Grande do Sul, aqui tá tudo bem”. 

Esse foi o diálogo que mantive com a inspetora de alunos, dona Celina Mesquita, e que acabou com a minha esperança de folga naquele dia.
Os dias seguintes foram normais. Ficamos sabendo que o presidente Jango havia sido deposto e que os militares estavam governando o país.

Em casa não me lembro de ouvir qualquer coisa sobre o golpe. Nem percebi que minha mãe e minha irmã mais velha pegaram vários papéis que meu pai mantinha dentro do guarda-roupa e fizeram uma fogueirinha no quintal. Perguntei a elas o que era e não me lembro da resposta exata. Mas fiquei sabendo depois que eram folhetos de propaganda comunista. Meu pai era amigo de alguns comunistas em Campinas e, às vezes, levava, em suas viagens para Marília, Bauru, Rio Preto, Bebedouro e Barretos - as cinco cidades às quais ele ia a trabalho, comandando um carro dormitório da Companhia Paulista de Estrada de Ferro - encomendas que eram entregues a um emissário na estação de destino. Alguns exemplares dos folhetos ele guardava em casa. Viraram cinzas provocadas pelo temor de que a repressão baixasse por ali, o que jamais ocorreu.
Quando o governo militar já estava instalado e os partidos proibidos de existir, meu pai me mostrou a carteirinha do sindicato. Nela havia uns rabiscos meio estranhos sobre os dados oficiais. O velho explicou: “Um dia, antes de 64, o Luiz Carlos Prestes viajou no trem e eu pedi um autógrafo pra ele na carteirinha do sindicato. Depois da revolução, eu disfarcei a assinatura dele, fazendo mais uns rabiscos por cima”.

Os festivais de música, que começaram em 65, me informaram que alguma coisa estava errada no país. Eu já amava os Beatles e iria amar os Stones muito em breve, mas gostava daquele pessoal que cantava na tevê músicas que falavam mais dos nossos problemas e das nossas esperanças. Os festivais desvendaram um novo mundo, em que ser contra o governo era a regra e na escola, a proibição de estudante ir a passeata com o uniforme era um sinal de que nós, jovens, estávamos tentando fazer alguma coisa.
Em 1968, eu já lia o Pasquim e o Jornal da Tarde. No primeiro, me divertia e aprendia com mestres do humor e do desenho e com os finos textos de Millôr, Sérgio Augusto e Paulo Francis entre outros. No segundo, passeava na ágil e moderna diagramação, preenchida com ótimas reportagens de uma seleção notável de jornalistas. E já entendia, aos 16/17 anos o que as receitas de bolos que surgiam de repente no meio do jornal queriam dizer.

Foi em dezembro de 68, o famoso "ano que não terminou" que a ditadura começou realmente, com o Ato Institucional nº 5 que deu poderes totais aos donos do poder e acabou com a vida parlamentar por um bom tempo. Foi aí que eu percebi que a liberdade era o bem maior que a gente teria que defender e a democracia era parte essencial dela. Foi aí que eu passei a pertencer a uma minoria que queria o fim da ditadura. Minoria? Sim. O povo, em sua grande maioria, não estava nem aí: se a economia não atrapalhasse sua vida, os políticos todos, os estudantes todos, os terroristas todos, os torturados todos e os assassinados todos que se danassem. Parece hoje, com a diferença que os torturados são presos comuns e os terroristas daquela época estão nos governos junto com os corruptos. E com a diferença também que eu posso escrever tudo isso e não ser preso. Pelo menos por enquanto.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Seis personagens



Edmilson Siqueira

Golé Marciano, Jota Toledo, Helder Bittencourt, Izildinha, Paulo Martinelli, Eustáquio Gomes.  O que eles têm em comum além de já terem nos deixado? A idade. Todos em torno dos 60 anos, o que é considerado hoje em dia morte praticamente prematura. 
Golé Marciano, jornalista, ótimo papo e grande figura, sempre atento aos amigos, não se importava em comer o que desse vontade e era relapso a médicos, regimes e colesteróis em geral. Assim, o garçom acabou trazendo a conta da vida meio relaxada rápido demais. Ele merecia curtir mais um pouco e nós merecíamos um pouco mais de Golé.

Jota, artista multimídia antes da era da informática, surrealista em vida e nas artes, não resistiu ao fato de o corpo ter fraquejado quase que definitivamente às doenças que o atormentaram desde cedo e aos cigarros e uísques que consumiu em doses elevadas por mais de 40 anos. Ao caminho inevitável do sofrimento, preferiu dar um fim na vida e levar com ela a dor que a tornava insuportável. Nada contra ele decidir por ele mesmo, mas seria bom ter Jotinha ainda hoje por aí, nos telefonando nas horas mais absurdas, ele que trocava o dia pela noite.
Helder, o sambista que tanta alegria nos trouxe, marcando nossos peitos com a batida certeira do seu surdo, preferiu viver a vida em sua totalidade a se fechar em copas e em remédios para tratar de doença grave. Às pílulas e regimes, preferiu a noite e a cerveja. Foi uma escolha também e merece de mim todo respeito, embora a dor causada aos que ficaram tenha sido enorme.

Izildinha, amiga que não via há tempos, pois vivia em São Paulo ao lado do querido Januário, estava cheia de planos, já que o marido agora tinha um pouco mais de tempo para as coisas mundanas e essenciais à felicidade. Um câncer a alcançou na esquina e impediu-a de prosseguir o caminho.  Não foi escolha, foi destino, foi fatalidade, foi injustiça.
Paulo Martinelli, jornalista que, sentando à minha frente na última redação que frequentamos, mais concordava que discordava de mim – o que era raro naqueles tempos -, era o que podíamos chamar de aventureiro. E intelectual a seu modo. Ah, discordávamos das mudanças climáticas ou aquecimento global, o que gerava deliciosas discussões que estariam vivas até hoje, não fosse a surpresa, a terrível surpresa de um ataque cardíaco. Agora, quando tomo uma Coca-Cola (o que faço apenas a cada três ou quatro meses) não é com o mesmo prazer: ela me lembra do Martina, toda noite na redação, a comer um xis bacon ou algo parecido, tendo ao lado a latinha, não a light ou a zero, mas a original.

E agora o Tatá, cuja morte encerrou o sofrimento – que não se sabe se ele sentia ou não – de longos anos de estragos irreversíveis provocados por um AVC. É certo que estava melhor, mas um amigo comum, que fora íntimo dele, me revelara: foram acidentes vasculares dos dois lados do cérebro e não haveria retorno mais do que ele alcançara até aqui: não falaria mais, compreenderia pouco e dificilmente abandonaria a cadeira. Eustáquio Gomes se foi deixando obra invejável pela qualidade do texto, pela criatividade e pelas amizades que semeou. (Leia nos comentários, informações mais precisas sobre Eustáquio Gomes, enviadas hoje, 24/02/2014, para o blog).
Enfim, são seis personagens que se foram antes do combinado ou mesmo sem nada combinar. Não vão nos acompanhar mais nessa aventura humana pelo planeta. Não creio em outras vidas, em paraísos ou qualquer coisa após a morte. Ficam a alegria das lembranças e a dor da saudade. Com elas continuamos vivendo até nos tornarmos também lembranças e saudades, alegrias e dores.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Jane Russell





Antonio Contente
No tsunami do enorme noticiário sobre a morte de Elizabeth Taylor, de repente lembrei: faz pouco mais de mês que outra famosa atriz, Jane Russell, também se foi. Claro que a intérprete de “Cleópatra” ocupou e ocupará lugar muito maior na história do cinema. Para isso, afinal, contou com enorme talento dramático que lhe rendeu dois Oscars, beleza absolutamente deslumbrante, olhos de profundo azul-violeta e vida animadíssima, crivada de maridos, amantes, doenças monumentais, bebedeiras homéricas etc. O que torna ainda mais curioso o fato de Jane, mesmo sem talento algum, sem beleza de tirar o fôlego ou vida pregressa borbulhante, ter marcado também de forma razoavelmente luminosa sua presença no cenário da chamada Sétima Arte. Por apenas um simples e bom motivo: ao estrelar “O Proscrito”, de 1941, seu filme mais cultuado, explodiu nas telas a exibir, através das aberturas de decotes, aqueles que foram considerados os seios mais bonitos, mais perfeitos, de quantos, então e até hoje, provocaram suspiros nas salas de exibições e também fora delas.


A explosão de Jane Russel quando Liz ainda nem tinha dez anos de idade (havia entre as duas uma década de diferença), foi, realmente, big-bang de muitos megatons. Primeiro que o produtor/diretor da obra que a lançou, o milionário Howard Hughes, descobriu a beldade nos dias em que ela era atendente de um dentista; ao resvalar, claro, seus olhos de lince pelo colo da incandescente moçoila. Segundo, que o filme com o qual o ricaço a catapultou para a fama esteve envolvido em algumas polêmicas. A principal, naturalmente, girando em torno das protuberâncias mamárias da morena. Que a censura americana, de cara, vetou, o que fez tardar o lançamento nos EUA. Aqui no Brasil, só pintou no pós-guerra, ali por 1946. Entretanto, o assunto Jane Russel já havia tomado conta do mundo. As fotos com destaque para o exuberante colo passaram a enfeitar paredes e portas de armários nos quatro cantos da terra. E até as duas montanhas mais importantes do Alaska, gelado Estado Americano, receberam o abrasador nome de Jane Russell’s Peaks. E para provar que a febre pela peituda atriz atingiu também o Brasil, lembro que o mais popular poeta nacional da época, equivalente a Vinicius de Moraes anos depois, chamado J.G. de Araújo Jorge, dedicou derramado poema aos mamilos da estrela, afirmando, em certo trecho: “Florações róseas de uma carne em flor/ Que se ostenta a tremer em dois botões”...


O que me passa então pela cabeça é que se, além dos lindos seios, Jane também tivesse o talento de Liz, teria sido o apocalipse. Agora, com o tema em pauta, queria dizer que o filme da Taylor que mais gosto é “Um Lugar ao Sol”, de 1951, ano em que Jane só resistia ainda graças à beleza das glândulas mamárias responsáveis, em 1953, por sua participação no badalado “Os Homens Preferem as Louras”, ao lado de Marilyn Monroe. Sobre “A Place In The Sun”, pego carona num comentário que li faz alguns anos no “Harper’s Bazaar”. O resenhista recordou que no romance que inspirou a citada produção, “Uma Tragédia Americana”, de Thedore Dreiser, o personagem George Eastman, vivido espetacularmente no celuloide por Montgomery Clift, realmente mata Alice Tripp, vivida por Shelley Winters. Na adaptação cinematográfica o diretor George Stevens colocou o episódio de forma meio ambígua, abrindo a possibilidade de que a morte da criatura poderia ter acontecido por acidente. E isso foi muito bom para a saga filmada, pelo ar de dúvida que implantou. Aliás, Stevens também mexeu na história original de outro grande trabalho seu, o clássico “Os Brutos Também Amam”. Na novela de Jack Schaefer transformada no filmaço, a atração entre Shane (Alan Ladd) e Marian (Jean Arthur), a esposa do dono da fazenda, é não apenas insinuada, aparecendo como algo, digamos, explícito. O gênio de Stevens, porém, ao lidar com o delicado tema na tela fez com que fluísse de forma singela, porém a não deixar dúvidas. Exposta, por exemplo, na cena em que Marian, filmada a passar pela janela da sua casa que dava para o terreiro onde se encontrava Shane, lança a ele um olhar. Tão delicadamente tórrido, que explicitou o intercurso de cinco horas seguidas no lusco-fusco de um escondido quartinho, com vasta cama de casal, no âmago das pradarias do velho Oeste. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A rifa


 

Edmilson Siqueira
Meu amigo Antonio Contente, que divide essas bissextas crônicas comigo, vai gostar da história que relato a seguir. História genuinamente verdadeira, apenas com nomes trocados porque os personagens ainda podem estar por aí e, como diria Contente, caldo de galinha e precaução são bons até em Belém do Pará. Pensando bem, acho que ele não diria isso, pois costuma colocar o nome dos amigos nas crônicas e inventar as histórias. Ele inverte o processo e o nomeado que se vire...

Bom, foi numa conversa dessas que a gente costuma dizer que joga fora, que conheci a história seguinte. Aconteceu entre os amigos de um velho ponto de táxi num antigo bairro da cidade. Naquela época, como não havia os serviços de chamar táxis a partir de uma central telefônica, havia menos corridas e os motoristas passavam mais tempo no ponto, jogando um baralhinho e, claro, se conhecendo muito mais. Assim, fiquei sabendo que Jairo, o coordenador do ponto, era mulherengo que só vendo. Bom de papo, quando uma passageira mais ou menos ajeitadinha entrava no seu táxi, os amigos já se olhavam como cúmplices. Ao virar a esquina, as apostas surgiam e era difícil achar alguém que apostasse contra o Jairo e sua fina lábia.  
Osmar, o amigo que me contou a história, informou também que a mulher de Jairo – sim, ele era casado há vários anos – era ciumenta demais. “E com razão”, acrescentou. “Jairo não perdia corrida, se é que você me entende”.

Pois não é que um dia o telefone do ponto tocou, Jairo atendeu e, assim que desligou, disse para os colegas: “Não volto mais hoje”. Como ainda eram duas da tarde, todos pensaram a mesma coisa: “Aí tem...” E tinha mesmo. Dia seguinte Jairo contou a novidade: “A mulher que ligou ontem é uma ricaça que eu peguei um dia lá no Tênis Clube. Não é viúva, mas o marido estava junto e no maior caco. Foram brigando no táxi, em voz baixa, mas eu ouvi tudo. O cara não dá mais no coro de tanto que bebe. Quando eles chegaram, ali na Nova Campinas, fiz questão de descer, abrir a porta pra ela e admirar aquelas belas pernas. Ela percebeu e mostrou mais ainda. O marido estava descendo do outro lado, quase caindo e eu aproveitei e lhe dei um cartão meio escondido. Ontem a Maria Helena – é esse o nome dela - ligou”.
“E aí?”, perguntaram os quatro atentos ouvintes.

“Aí”, respondeu Jairo, peito meio estufado, se esforçando um pouco para esconder a barriga, “ela saiu de casa sozinha, com um vestido mais generoso que o da primeira corrida, sentou no banco traseiro sem se importar com as pernas à mostra e disse que o marido estava viajando a negócios, São Paulo, Rio, por aí e só voltava em dois dias”.
Os amigos taxistas esfregaram as mãos: “E aí?”

Jairo fez cara de vencedor: “Aí fomos para um motel e passamos a tarde toda lá”.

O caso já durava um mês quando Jairo chegou ao ponto de manhã e saiu do carro com uma caixa na mão. Mostrou aos amigos: “Olha só o que ela me deu”. Era uma camisa importada, de pura seda, coisa de ser comprada com muitos dólares naqueles anos de inflação louca. Não era pra taxistas como eles que ficaram de boca aberta admirando o presente. Mas Jairo estava triste: “Como vou chegar com isso em casa? A patroa me mata, não vai acreditar se disser que comprei, vai querer ver a nota, vai querer saber o preço e vai descobrir que é coisa fina demais pro meu bico”.
Foi então que Osmar, que já abandonou a carreira de taxista há mais de 20 anos e vive de próspero comércio no Centro de Campinas, me disse que deu uma sugestão genial pro preocupado Jairo: “Faz uma rifa”.

“Como assim, vou rifar a camisa?”
“Não. Você compra uma cartela dessas com nome de mulheres na frente e atrás, aquelas do Heitor dos Prazeres, de Jandira, abre o lacre, vê o nome vencedor e assina nele. Daí a gente preenche o resto como se tivesse comprado a rifa. Aí você chega em casa com a cartela e diz que ganhou a camisa na rifa”.

“Você é um gênio, Osmar! Salvou minha vida!”
Na volta da corrida seguinte, Jairo já chegou com a cartela na mão, com o lacre rompido e com seu nome no quadradinho da Marcela, era esse o nome vencedor. Os outros 99 quadradinhos da cartela foram preenchidos pelos colegas, que, além dos próprios nomes, inventaram mais um monte deles. Ao sair para a última corrida do dia, Jairo agradeceu a todos eles, “vocês são amigos de verdade”.

Dia seguinte, de manhã, Jairo foi o último a chegar no ponto. Os amigos o cercaram: “E aí?”
“Aí que deu merda!”

Ouviu-se um “por quê?” uníssono.

Jairo sentou no banco e começou a falar, voz baixa, mas firme: “Vocês sabem que minha mulher é ciumenta, né? Pois quando lhe mostrei a rifa dizendo que ganhei, ela me perguntou por que eu não assinei Madalena, que é o nome dela. Eu não sabia o que dizer. Aí ela me perguntou quem é essa tal de Marcela. Eu disse que era ninguém, foi só um palpite. ‘Cês acham que ela acreditou? Já desconfiada, pediu pra ver a camisa. Pô, vocês sabem que eu sou grande, tenho quase dois metros e estou meio gordo, meu número é 'Extra GG' e a camisa da rifa era exatamente o meu número! Aí foi demais! A camisa virou picadinho e eu acabei dormindo num hotel. Sozinho. E tem mais: quando a Maria Helena me deu a camisa, marcamos pra hoje à tarde, que o marido foi viajar de novo. E ela falou: não me apareça se não estiver com a camisa!”

sábado, 21 de setembro de 2013

Chove. Chega a Primavera



Antonio Contente  

       Há doces magias nas chuvas desta época do ano. A que agora cai começou há pouco e desaba sobre a Chácara da Barra trazida por ventos que sopravam, até há pouco, dos lados da D. Pedro, via tantas vezes percorrida quando busco o mar. É inevitável falar que vem, do quintal, o bom cheiro da terra molhada. Também é inevitável lembrar que o tronco da grande sibipiruna que se ergue suprema em frente da casa, uma vez umedecido deixa que escorra, entre seus nódulos e cascas, uma forma de alegria a conduzir, consigo, as seivas da vida. Sou, por todas as formas, um homem marcado pelas águas. Desde o elemento do meu próprio signo que me foi revelado pelo bruxo Geraldo Garcia, íntimo de astros e estrelas, até o lugar em que nasci, no âmago da Amazônia, uma beira de rio que adormece e acorda entre marés, correntezas e claridades.

       Mas esta chuva que cai, eu dizia, traz consigo as canções de sentimentos e histórias. Poucas coisas são tão simples, porém tão estimulantes, como ver a água transformada em gotas brilhantemente dilaceradas a escorrer dos beirais antigos. Há, nas casas velhas, o húmus da síntese dos sonhos. E elas se tornam eternas em tardes como esta, em que a grande chuva que o mar nos mandou cai das telhas debruçadas sobre o corredor posto entre o muro de heras e as paredes do aconchego. Os beirais, saibam, guardam, em suas entranhas, os cantos dos bem-te-vis e o benfazejo das auroras. Os beirais, por onde resvalam brisas e poeira de estrelas, retêm a filosofia das idades. Benfazejos são os pingos que ficam caindo quando a chuva se torna menos que chuvisco. E é ali que os passarinhos deste simpático bairro campineiro vêm beber sabendo, muito melhor do que eu, que o verdadeiro tempo de beleza é deles e da síntese de seus voos.

      A chuva é a canção que o tempo compõe no pentagrama das horas que comovem. Aqui estou, de ouvidos atentos, sentindo no ar os bemóis e sustenidos de certa modinha antiga, muito, muito antiga. Coloco a mão para fora da janela aberta, e sinto na pele o frescor da sonata e o moderato do compasso inesperado. Ah, em que tempos ficaram os meninos que vinham se banhar nas águas que caíam dos beirais? Em que tempo estão as buganvílias escandalosamente vermelhas, que mais vermelhas ficam com o despejar de céus que se liquefazem como este exatamente agora?

       Quando a última gota se desprender deste beiral, chegará a hora de colher as belezas que ficam após os aguaceiros. Andaremos, então, sobre as calçadas molhadas. Colheremos, sem sobre elas colocar os dedos, a umidade que resiste nas folhas dos jardins, e que logo mais à noite se tornarão pedras preciosas no sentimento do orvalho. Somos, assim, tocados pelas canções desta chuva de setembro, poucos dias antes da chegada da Primavera. E ali na praça, quando a brisa do anoitecer bater, as luzes dos postes, refletidas nos galhos, serão as pepitas de ouro deste tesouro que eu, pirata de tantos mares, esconderei na ilha aonde cheguei levado pelas linhas da vida de tuas lindas mãos. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma grande fria


Edmilson Siqueira

O portal do Estadão, através da Eldorado FM, está realizando uma enquete para que seus leitores votem na música que eles consideram o maior clássico brasileiro de todos os tempos. E para facilitar o trabalho de todos – do leitor e do jornal – expõe uma lista com 50 músicas adrede escolhidas.
Elaborar uma lista de cinco, dez, vinte, cinquenta, cem ou mesmo mil melhores de qualquer coisa já é um problema. Isso porque a lista é elaborada a partir de opiniões e, mesmo sendo opinião de gente que entende do assunto, a lista nunca satisfará todo mundo. Em segundo lugar, há que se ter um critério. No caso, me parece que houve algum – as músicas mais conhecidas dos autores mais conhecidos, ou algo parecido. Mas aí surge mais um problema: todos os grandes compositores brasileiros têm umas dez ou vinte músicas que muita gente julga clássicas, definitivas, perfeitas – e com razão. E há muitos outros problemas, como o do compositor de uma música só, um clássico, claro, mas só aquele. Eu poderia citar, de cabeça, uns quatro ou cinco autores que só são conhecidos por uma música. Por exemplo: Niltinho Tristeza, que tem esse nome exatamente por causa do clássico “Tristeza”, (pareceria com Haroldo Lobo) sucesso na voz de Jair Rodrigues. Pois desafio o leitor a dizer, sem olhar no Google, outra música dele. Mas ele não está na lista. E os parceiros de Aldir Blanc no mais que clássico “Amigo é pra essas coisas”? Essa música também ficou de fora... Mas quem está, e com justiça por sinal, é Silvio Rochael Cassiano. Sabe quem é? Agora vai saber: foi ele quem compôs aquela beleza chamada “Primavera” que Tim Maia eternizou.

Há alguns anos a Rede Globo se arvorou a fazer um programa classificando as melhores músicas brasileiras, numa lista que ela também julgava definitiva. Ganhou “Carinhoso” (que é, realmente, uma unanimidade, mas ser a melhor de todas é altamente discutível). Pois nesse programa com “as melhores músicas brasileiras de todos os tempos”, Adoniran Barbosa ficou de fora e quase que João Bosco e Aldir Blanc também ficam. A dupla foi encaixada no fim do programa, mas a ausência do Poeta do Bixiga só foi descoberta depois de o programa ter ido ao ar. Parece que houve uma homenagem posterior, mas a emenda piorou o soneto.
Adoniran, por sinal, nessa lista aparece com “Trem das Onze”, que, claro, merece estar em qualquer lista das melhores de todos os tempos. Mas e “Saudosa Maloca”? E “Vila Esperança”?

Por essas e por outras, muitas outras por sinal, é que elaborar listas para tentar descobrir qual é a melhor música, mesmo que se elenque 50 delas, é fria. Se valer a popularidade ou a vendagem de discos, por exemplo, periga a dupla Roberto/Erasmo, que comparece com duas músicas na lista, ganhar de Jobim, Cartola, Chico e outros cujas obras estão anos luz à frente dos heróis da jovem guarda no quesito qualidade, mas que venderam muito menos e tiveram muito menos públicos em seus shows.
Na época dos festivais da Record, a briga já era grande. Os programas mobilizavam a moçada do Brasil inteiro e, por um mês, não se falava nas escolas. No dia seguinte ao da final, no velho Culto à Ciência de Campinas, onde eu estudava, até aulas foram interrompidas para se discutir qual era melhor: Banda ou Disparada.

A lista da Eldorado é boa, não há dúvida, mas passando por ela atentamente, senti falta, assim, de cara, de uma dez ou vinte músicas tão clássicas para a MPB quanto qualquer uma das listadas. Jobim comparece com seis, uma sozinho e as outras cinco com seus parceiros – Newton Mendonça, Vinicius e Chico. É o que mais tem músicas na lista, mas “Insensatez” – sucesso mundial até hoje, com dezenas de gravações pelo mundo afora, não consta da lista. E da parceria com Chico, está “Eu Tem Amo”, sem dúvida um clássico. Mas e “Retrato em Branco e Preto”, cuja gravação só com orquestra (sem a letra do Chico), com Jobim ao piano, numa catedral em Nova York, recebeu, ao fim, aplausos em pé de toda a orquestra, comovida pela beleza da melodia?
Realmente, fazer listas para escolher melhores músicas, filmes, livros, quadros, qualquer coisa que dependa do gosto de uma pessoa ou de um grupo é uma grande fria.

domingo, 23 de junho de 2013

Ah, o tempo...


 
Antonio Contente

Ao ler a bem bolada entrevista do cronista Edmilson com o cantor e compositor, constatei mais uma vez: de fato há certos acontecimentos que, levados para o lado da fofoca, adquirem certa aura filosófica. Pensando nisso, me larguei a navegar sobre o episódio que na época ganhou inúmeras manchetes. E tornou a dançar em minha mente o ocorrido entre as ondas da praia do Leblon, no Rio, na manhã em que fotografaram o compositor Chico Buarque de Holanda atracado, aos beijos e abraços, com a bela mulher. No entreato, minha reflexão transitou muito menos sobre o mexerico em si e mais sobre o efêmero das coisas, de como a juventude, este doce pássaro que já virou filme e peça de teatro, graças ao talento de Tennessee Williams, voa rápido para éteres incertos e não sabidos. O flagrante do compositor e da guria quase ofuscou totalmente as notícias que falavam então de Severino, o formidável presidente da Câmara Federal – lembram? --- extraordinário presente que, junto com Lula, Pernambuco deu ao Brasil. O que se disse na ocasião foi que a moça flagrada com o autor de “Carolina” seria casada e que o marido, apontado como criatura violentíssima, estaria azeitando o tresoitão para alvejar o maduro e charmoso Don Juan.

No passado remoto as pessoas costumavam garantir que o tempo é o senhor da razão. Bastou, assim, que a ampulheta vazasse um pouco mais de areia para que novas nuances do rumoroso caso viessem à tona. A melhor acho que foi a entrevista que o marido corneado, inicialmente apontado como fera, deu para a colunista Mônica Bergamo, da “Folha de S. Paulo”. Certamente uma desfrutável matéria. Pela simples e boa razão que o tal esposo, no papo que manteve com a jornalista, revelou ser dono de mansidão de cambaxirra. A demonstrar que jamais seria capaz de alvejar uma simples formiga, quanto mais o estrelado compositor.

O ponto da entrevista que prendeu minha atenção, e que veio ratificar o quanto o tempo passa rápido, acabou sendo o fato de o rapaz reconhecer que Chico, subitamente travestido de Ricardão, poderia, de fato, estar apaixonado pela mulher dele. E que seria, como se dizia antigamente, de bom alvitre que fosse procurar parceira condizente com sua idade. Criatura facilmente achável em alguma clínica geriátrica, segundo garantiu o elástico traído.

Santo Deus, amigos, aí descobri o quanto o tempo passa! Pois no começo dos anos sessenta, setenta, Chico Buarque era, para a turma da minha geração, o símbolo acabado da juventude, a força maior capaz de abalar os alicerces da ditadura que nos asfixiava. Todavia, de repente, o garoto que arrastava multidões aos auditórios, agora entrado no rol dos quase septuagenários, foi aconselhado, ironicamente por um cara que devia ter, na manhã da corneação, a idade que o encanecido rufião tinha na época em que compôs “Sabiá”, a procurar um asilo a fim de capturar alguém para preencher seus dias e conceder calor às suas inspirações. O que, em última instância, me deixou em desconfortável situação, pois sou pouco mais velho do que Chico Buarque.  Será que devo, também, catar eventual parceira em algum retiro para membros da quinta idade? Tudo bem, até vou. Só se puder, claro, levar pra casa alguém com a estampa da Vera Fisher ou, em última instância, da Sophia Loren. Isso porque a primeira já passou dos sessenta, não é mesmo? E a segunda, a trafegar pelos setenta e lá vai fumaça, poderia até me demonstrar, na prática, se é realmente nas panelas velhas que se faz comida boa. Como fundo musical, “Anos Dourados”...

PS – Gostaria muito de saber, e se alguém puder matar minha curiosidade, por favor, pode fazê-lo por aqui: o marido corneado por Chico, após perdoar a traidora, permanece até hoje com ela?

sábado, 1 de junho de 2013

Há uns seis ou sete anos



Edmilson Siqueira

Acho que foi em 2006 ou 2007 que Chico Buarque foi flagrado no Leblon tomando um banho de mar com uma bela morena e trocando alguns calientes beijos com ela. Um paparazzo de plantão fez as fotos - e boas fotos como se vê acima -, botou na imprensa e deu-se um pequeno escândalo porque a mulher era casada. O marido até foi entrevistado e, magoado, disse que Chico deveria procurar alguém da idade dele. Chico, que já gosta de uma privacidade mesmo quando não acontece nada, sumiu de vez. À época eu trabalhava no Correio e mantinha, na revista Metrópole encartada na edição de domingo, uma coluna de meia página chamada Farol. E, ao pensar em escrever a coluna, tive a ideia de “entrevistar” o Chico sobre o ocorrido. Claro que não seria uma entrevista normal com jornalista e entrevistado frente a frente, nem pelo telefone, nem por e-mail, mesmo porque não sou amigo dele, não tinha seu número de telefone e nem imaginava qual seria seu e-mail.

A ideia que tive passava pela extensa obra do compositor e cantor. Ali estavam todas as respostas que eu necessitaria para botar na “entrevista”. Chico foi o autor da trilha sonora da minha geração. Desde A Banda, no meio dos anos 60, até o fim da ditadura, tínhamos no repertório do Carioca (apelido dele na FAU em Sampa), nosso consolo perante a censura, nossa vingança perante os brutamontes do governo, nossos gritos que não podíamos soltar. E as mais perfeitas cantadas para nossas possíveis namoradas. Então fui elaborando algumas perguntas e procurando nas letras das canções todas as respostas. E, cá entre nós, foi mais difícil fazer as perguntas do que achar as respostas, já que sei – ou sabia, faz tempo que não tento lembrar as músicas dele – muitas letras inteiras, inclusive as mais longas. Que eu me lembre, busquei no site oficial apenas uma resposta, de uma música mais recente à época. O resto saiu automaticamente. E reclamei baixinho (êpa!) do fato da coluna ser tão pequena, porque havia ainda muito material que se encaixava na "entrevista". Até pensei (êpa de novo!) nessa republicação, em continuar com as perguntas e as "respostas", mas achei que está de bom tamanho. Se alguém quiser continuar a brincadeira fique à vontade.
        As razões do Chico

            Depois do bafafá todo em que resultou a aparição de Chico Buarque com aquela morena na praia do Leblon, o grande artista se fechou em copas, talvez aprontando mais uma das suas, mas, tímido como ele só, estava se recusando a comentar o affaire. Só com muito custo e num verdadeiro esforço de reportagem, consegui que ele falasse.

        - Por que você decidiu ir para a praia com ela?

        - Estava à toa na vida...

        - Não dava pra ir bem cedinho quando tem menos gente?

        - Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã.

        - O que te levou a dar uns beijos nela em público?

        - Meu sangue errou de veia e se perdeu.

        - O que ela lhe disse na hora?

        - Vem, meu menino vadio...

        - E você não hesitou?

        - Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor.

        - Não era apenas uma aventura?

        - Fui muito fiel, comprei até anel, botei no papel o grande amor.

        - Você não pensou na repercussão...?

        - Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada.

        -Você acha que a imprensa exagerou?

        -E do amor gritou-se o escândalo.

        - Você sabia que ela era casada?

        - Eu andava pobre, tão pobre de carinho que, de tolo, até pensei que fosse minha.

        - Você vai se recolher depois dessas notícias todas?

        - Eu vou sair por aí atrás da aurora mais serena.

        - Pode acontecer de novo?

        - Ninguém vai me surpreender na noite da solidão.

        - Por que ela ficou com você?

        - Se você quer mesmo saber por que ela ficou comigo, eu digo que não sei.

        - Você já desistiu dela?

        - Amei daquela vez como se fosse a última.

        - Então não há esperança?

        - Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer.

        - Algum recado pra ela?

        - Sim, vai e diz, diz assim que eu chorei, que eu morri de arrependimento, viu, o meu desalento já não tem mais fim.      

        - Então você está magoado?

        -Vai passar.

        - Algum recado pra ele?

        - Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.

        - E agora, depois dessa história toda, o que você vai fazer?

        - Vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Coincidências acontecem

Edmilson Siqueira

Antonio Contente, com quem divido essas bissextas crônicas, já foi cronista de outros jornais. Em suas histórias, onde ele revelava um universo que beirava o rodriguiniano, mas com uma dose de humor que o aproximava mais da, digamos, galera, costumava colocar nos personagens nomes de amigos em situações as mais incríveis. Claro que era ficção, mas sempre dava alguma gostosa encrenca que o dono do nome sublevava, talvez motivado pela fama repentina no círculo de amigos ou mesmo pela façanha que o xará praticou nos enredos mirabolantes que o cronista criava.
Claro que essa introdução é para contar a história de uma crônica que tem como personagem principal um tal de Edmilson, casado com uma tal de Eurídice - nome da minha mulher à época. Não vou repetir aqui a crônica toda, mas só seu miolo: na história do Contente, meu xará abandona a mulher oficial para fugir com a empregada, uma mulata pra quatrocentos talheres, como diria Stanislaw Ponte Preta, o grande Sérgio Porto, outro ídolo meu e do Contente.

Na época Contente publicava suas crônicas na Folha da Tarde, vespertino que tentava competir com o Jornal da Tarde. E tanto um como outro, embora tivesse a palavra “tarde” no nome, estavam nas bancas cedinho, junto com outros matutinos.
Quando a crônica aportou nas páginas do jornal, minha então sogra realizava um trabalho de cooperação entre o Brasil e Angola, ela que era engenheira de alimentos e havia se prontificado a ensinar técnicas de panificação e outras para a incipiente república popular angolana, recém-libertada do colonialismo português e mergulhada num caos que só os regimes de esquerda conseguem construir, mas isso é outra história.

Pois minha sogra pediu, por telefone, ao seu irmão que morava em São Paulo, que lhe enviasse umas panelas, artigo raro por lá. Ele prontamente atendeu. Comprou as ditas cujas e resolveu embrulhá-las melhor, para enfrentar o longo voo da Varig entre Sampa e Luanda, sem que chegassem amassadas na capital angolana. E, para tanto, comprou, na banca de jornal mais próxima e já dentro do aeroporto, o primeiro exemplar que suas mãos alcançaram. Era uma Folha da Tarde. Usou-a inteira para embrulhar cuidadosamente cada panela dentro da caixa.
Devidamente seguras, as panelas seguiram para Luanda. Dia seguinte, minha sogra pegou o pacote no aeroporto de Luanda e levou para casa. Lá chegando, ao abrir a caixa, se deparou com uma edição inteira de um jornal brasileiro o que, naquela ocasião, era um tesouro! Cabe aqui explicar que estamos no início dos anos 1980, quando um telefonema entre Luanda e Campinas demorava horas para se concretizar, pois a ligação era feita para Portugal via cabo marítimo e, de lá, até Luanda via rádio. Internet, se já existia, era restrita ainda às universidades europeias e norte-americanas.  Como o regime de lá era uma ditadura de esquerda, não havia imprensa livre e notícias, além das oficiais, não chegavam a ninguém.  Daí que uma Folha da Tarde inteirinha para uma brasileira perdida na África era realmente um tesouro.

Pois ela esqueceu-se das panelas e passou a devorar o jornal. Leu tudo, das manchetes à penúltima página. Penúltima? Pois é. Na penúltima página é que estava publicada exatamente a crônica do Contente, onde o tarado do Edmilson foge com a fogosa empregada mulata de 400 talheres. Ali ela parou a sequência de páginas. E leu de novo pra se certificar dos nomes e fatos. Em seguida pegou o telefone e rapidamente pediu uma ligação para o Brasil, mais precisamente para Campinas.
Eu me lembro que quem atendeu foi a filha dela que, depois de responder duas ou três vezes que estava tudo bem, me perguntou sobre uma história que saiu num jornal, escrita por um tal de Antonio Contente, sobre um tal de Edmilson casado com Eurídice que havia fugido com a empregada. Eu nem tinha lido a crônica, nem ele tinha me avisado que usara nossos nomes. Aliás, nem empregada tínhamos.

Desfeito o engano, demos boas risadas. Mas, pensando bem, qual é a chance de uma crônica publicada num jornal de São Paulo ir parar nas mãos de uma mulher no meio da África e ela ter uma filha e um genro com os nomes usados pelo cronista numa história que ele inventou? Deve ser mais fácil acertar na Mega-Sena fazendo só um joguinho de seis dezenas.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Os que sabiam cantar



Antonio Contente
                                                                                
Numa longa entrevista que deu à Folha de S. Paulo já faz algum tempo, o compositor Chico Buarque garantiu que a canção, do jeito que a conhecemos, está com os dias contados. Claro que, em termos de música popular brasileira não tenho vastos conhecimentos, não sou nenhum Ruy Castro ou Edmilson Siqueira, mas, humildemente, confesso que adoro uma canção antiga. Nem diria que, cronologicamente, sejam músicas do meu tempo. Até porque essas coisas, afinal, não podem ser delimitadas assim. Entendo que um cara que esteja nascendo hoje poderá muito bem, daqui a trinta anos, se daqui a trinta anos ainda existir mundo, o que eu duvido, curtir um velho Lupicínio. 

Nem vou falar do que se compõe (ou decompõe) atualmente porque, francamente, faço ouvidos moucos para tais claves. E quando vejo, por exemplo, nas TVs, as multidões de jovens delirando nos shows de rock ou axé, em geral opto por guardar minha boca para comer minha farinha.

Tarde dessas lembrei de uma canção antiga em que o cantor celebrava “aquele olhar tristonho da cor do luar”. Ora, amigos, vamos falar a verdade, dizer que um simples olhar tem essas características não apenas enriquece o gesto como santifica pálpebras e retinas. E sou imediatamente remetido para a noção de que os compositores atuais deixaram de saber dizer as coisas, até porque se referir às zonas do meretrício apenas como zonas do meretrício, conforme ocorre em muitas letras, não tem a força de apontar tais locais como “ruas de amor e de pecado”. Que é como faziam antigamente.

Os morros do Rio... Bem, os morros do Rio viraram objeto de polícia e sociologia. Todavia, o que de fato faz bem às minhas tardes de chuva é saber que ali, para alguém, aquilo já foi apenas palco iluminado onde, vestido de dourado, o camarada se descobriu a cantar suas parcas ilusões “entre as palmas febris dos corações”. Para depois ver a amada, distraidamente, pisar nos astros... 

Olha, não consigo me acostumar com a realidade de que um apaixonado não possa mais pegar um violão para dizer que sonhou que a mulher idolatrada estava tão linda numa festa de raro esplendor. Ou que “adeus” são cinco letras que choram num soluço de amor, isso sem falar como deve ser duro um sujeito não mais saber berrar que tem o companheiro inseparável na voz do seu plangente violão. Poucas coisas são tão lindas, na música popular brasileira, como esse jeito simples, maravilhoso, de se referir ao instrumento de cordas como “plangente violão”...

Se você quer um sinal das pioras do mundo, concentre-se na realidade do quanto seria apedrejado alguém que escrevesse hoje que em sua rua mora uma deusa possuidora de olhos onde a lua costuma se embriagar. E que em tais olhos o sol, num dourado sonho, vai claridades buscar...

Mas, para focar melhor a que levam as contradições das épocas, o jornalista Milton Frungilo me contou que um conhecido seu que curte velhas canções e mora numa bela casinha na Vila Industrial, domingo desses nela entrou, depois de umas e outras. Feliz disse para a mulher, bem mais nova, chamada Maria, que o nome dela principiaria na palma das mãos dele. Arrematando com um “vem, querida, quero descansar na serpente de seda dos teus braços”. Ao que ela retrucou:

- Eu, hein, sai pra lá. Detesto cobras...

E quando o camarada foi dormir ela colocou, no som, um rap de angustiante atualidade...