domingo, 6 de julho de 2014

Paris 6 – Flores, plantas e crocodilos



Era uma linha férrea, agora...

Edmilson Siqueira

A natureza tem entrado firme no meu cardápio parisiense nos últimos dias. Seguindo uma dica do blog Conexão Paris, fui conhecer um tal de jardim suspenso chamado Promenade Plantée. Sua origem, fiquei sabendo no blog, é uma antiga via férrea que terminava na Place Bastille. Era uma via suspensa, apoiada em grandes arcos. Com a desativação da via férrea, a praça ganhou a Opéra Bastille, cuja arquitetura não agradou muita gente (eu gostei, embora ela destoe do conjunto da parte central da cidade), e o comprido viaduto (uma espécie de “minhocão”) se transformou num enorme jardim. O início dele passou a se chamar Viaduct des Arts e o espaço sob os arcos foi ocupado por lojas que, de alguma forma, fazem arte para vender, como joalheiros, ourives, fabricantes de botões, tapeceiros etc.
Os corredores cercados de plantas: 4,5km
 

Mas é sobre o viaduto que se estende, por mais de 4,5km, um belo e diferente jardim. Estreito – não mais 10 metros de largura – ele possui os mais diversos tipos de canteiros. Por motivos óbvios, não tem árvores altas. Mas ali se encontram muitas espécies de flores dos mais diversos coloridos. O jardim todo, além de um ótimo lugar para se sentar num dos bancos (não são muitos) é usado mais para caminhadas e corridas. Estive lá sexta passada e o que mais vi foram “atletas” correndo pelo jardim. A paisagem que se desfruta é bonita e curiosa. Como o jardim está a uns 10 ou 15 metros de altura, ficamos ao nível dos primeiros andares dos prédios que margeiam o trajeto todo. E a cada esquina da rua lá em baixo, abre-se um corredor de prédios irresistível para fotógrafos amadores como este escriba. Andei cerca de 2km pelo Promenade Planée. Não fiz o trajeto completo porque vou voltar lá, semana que vem, com a Zezé, que chega no próximo dia 13.
As ruas abaixo do jardim: irresistíveis

No sábado resolvi conhecer o Jardim das Plantas. Estava andando pela Avenue Daubenton e, de repente, vi uma placa indicando o jardim. Como já tinha visto no mapa e havia pensado em conhecer, resolvi ir pra lá. No meu mapinha (um Paris Popout Map, que só recomendo para quem tem tempo e não tem medo de se perder em Paris), o Jardin des Plantes é um subtítulo do pomposo Muséum Nationale d’Histoire Naturelle.
Entrada do Jardim das Plantas
 
Cheguei, entrei (é grátis passear por lá) e comecei a fazer umas fotos. Olhei em volta e pensei: vou até ali, faço mais umas fotos daquelas belas árvores, dou a volta naquela pracinha e pronto. É muito bonito, mas parecia pequeno ali da entrada. Mas foi só fazer uma curva mais pra frente e uma amplidão se descortinou. O jardim continua com duas enormes “avenidas” cujos canteiros centrais são canteiros mesmos, cada um com uma espécie de planta com ou sem flores. Mas isso é apenas uma parte.
De repente, descortinou-se uma avenida de jardins 

Caminhando um pouco mais chega-se a um grande pavilhão cujos cartazes externos trazem grandes promessas: florestas tropicais, areia e plantas de desertos, pequenos lagos, enfim, um passeio pelo mundo vegetal. Ali, para entrar, custa 6 euros, mas vale cada um deles dada a quantidade e a variedade de plantas que você conhece.
Floresta úmida: paraíso dos  biólogos
 
E nos corredores da “exposição” há, separados por alguns metros, um pequeno dispositivo que liga quando você para na frente dele e começa a contar tudo sobre as espécies que estão à sua frente. Pena que é em francês e eu entendi muito pouco. Saí dali mais que satisfeito pelo que vi, aprendi e fotografei. É outro lugar que vou levar a Zezé semana que vem.
Cactos de todas as famílias e tamanhos
 
Na volta para o hotel, já fim de tarde (embora faltassem ainda umas quatro horas para anoitecer, o que acontece, nessa época, lá pelas 22h), vi uma escultura numa esquina da Rue Curvier que resolvi fotografar. Ela fica a uns 3 metros de altura, ao lado de um café.
De longe, cadê o crocodilo?
 
Fiz a foto aí de cima, olhei pro povo que estava no café e uma senhora, aparentando mais de 70 anos, li sentada e tomando um chá com bolachinhas (isso eu vi depois), me chamou, fazendo aquele universal gesto com o dedo indicador se curvando. Olhei de lado para me certificar se era comigo mesmo, olhei pra ela, apontei para meu peito (“eu”) e ela confirmou. No caminho até ela fui pensando no que será que ela queria comigo. “Vou parlez français?” ela perguntou e, diante da minha negativa: “Anglais?”. Eu: “More or less”. Aí ela me perguntou, numa mistura de inglês com francês, se eu havia visto, na foto que fiz da escultura, um crocodilo. Respondi, também misturando línguas um pouco, que da distância que estava não havia reparado no crocodilo. Pois ela me disse que ali havia um crocodilo e que era bom eu olhar bem pra ele, pois eles correm o risco de só existir em esculturas, já que estão acabando, que na França não existem mais.
Taí o crocodilo

Disse a ela que ia tirar mais uma foto, de perto, para ver bem o crocodilo. Ela sorriu e nos despedimos.  Fui até a escultura, fiz outra foto e, ao atravessar a rua para ir embora, olhei pra ela de longe que me fez, com o polegar direito, um sinal de positivo que eu, claro, retribui.
 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Paris 5 - Verlaine, Hemingway e Sérgio Augusto




Edmilson Siqueira

Em seu livro “E foram todos para Paris” o jornalista e cronista Sérgio Augusto escreve, na página 82: "Por suas bibocas e suas feiras, a Rue Mouffetard talvez ainda mereça uma visita (...)  “Como em dezenas de ruas da cidade, a numeração dos prédios mudou, dificultando a localização precisa de alguns endereços históricos. De qualquer modo, procure o prédio de número 39, onde o poeta francês Paul Verlaine morreu em 1896, hoje um restaurante (La Maison de Verlaine), olhe bem para cima e pense em Hemingway. No último andar ele alugou um quarto, por 60 francos mensais, exclusivamente para trabalhar com a “mitrailleuse” (metralhadora) que era como chamava sua máquina de escrever Smith Corona”.

Com o livro debaixo do braço, depois de consultá-lo novamente durante o petit déjeuner (petit mesmo: um chocolate quente e um croissant), entrei pela Rue Mouffetard disposto a ver se ainda estava tudo lá. Como estava no fim dela, mais ou menos da altura do número 100, previ uma boa caminhada até o 39. Isso porque em Paris os números das casas são em sequência normal, de um lado ímpar e par do outro lado. E, pior, há alguns que se repetem acrescentado a letra A ou escrevendo um “bis” depois do número. Assim, calculei que teria mais de 40 prédios pela frente. E a rua é uma subida, não muito íngreme, mas uma subida.

A Rue Mouffetard já foi mais famosa, já obrigou restaurantes mais frequentados, mas ainda tem seu charme. Há cafés de todos os tipos e comércios principalmente de alimentos. Vi frutas as mais variadas, carnes de todos os tipos – inclusive um restaurante especializado em carne argentina – frutos do mar, massas de algumas regiões da Itália, vinhos dos quais jamais ouvi falar e todos com pose de serem muito bons, e dois prédios distantes mais ou menos uns 80 metros um do outro, da Prefeitura de Paris, ambos dedicados à educação infantil. Achei curioso num espaço tão pequeno, porque parece que na rua parece ter só comércio. Mas não é bem assim: sobre cada restaurante ou comércio, há alguns andares de residências, ou de quartos como o que alugou o velho Ernest.
Já estava no número 45 e certo que, dali umas cinco ou seis casas chegaria ao famoso 39. Mas, depois do 41, começa o segundo prédio das escolinhas e quando ele acaba, a numeração já está abaixo de 20 e, logo em seguida, a rua acaba. Ou seja, não existe – ou não existe mais – o número 39 da Rue Mouffetard.

Confesso que fiquei um pouco decepcionado, mais por um provável erro do Sérgio Augusto – um cara que escreve muito bem e é sempre preciso em suas citações - do que pelo fato de não encontrar a casa de Verlaine ou o refúgio do autor de “Paris é uma Festa”.
 

 
Continuei andando na rua que começava depois da escolinha e que era uma continuação da Mouffetard. Ela vai dar na Sorbone e seria legal passar por ali e também pelo Pantheon. Mas, nem bem tinha andado uns 50 metros, deparo com – adivinhe o quê? – justamente La Maison de Verlaine, exatamente no número 39 da rua... Descartes que é o nome da continuação da Mouffetard. O restaurante estava fechado – aliás, tinha um empregado ou proprietário lavando a frente – mas há uma entradinha fechada por uma porta de vidro ao lado do restaurante, talvez a entrada original da casa de Verlaine.
 
Ali, na pequena fachada, além de uma inscrição em pedra sobre o poeta, há também outra registrando a estada de Hemingway. E várias fotos num quadro, já amareladas pelo tempo. Tentei olhar lá dentro, mas quase levo um banho de mangueira do rapaz que estava lavando tudo por ali. Fui para a calçada do ouro lado – a rua é bem estreita - e, como sugeriu Sérgio Augusto no livro, pensei em Hemingway no andar de cima, há mais de 60 anos, metralhando sua Smith Corona. Agora preciso dar um jeito de avisá-lo que, no caso, não foi a numeração que mudou, mas a própria rua.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Paris 4 - Lost in paradise

 
LOST IN PARADISE



Edmilson Siqueira
 
Planejei direitinho antes de sair do hotel. Metrô tal até tal estação, troca de linha e vai até tal estação, desce, anda uns 3 quarteirões e chega no Museu Marmottan-Monet. A viagem era meio longa, mas simples. Troquei de linha e, na segunda estação, entra no Metrô uma senhora, bem idosa, Bem vestida, com passos lentos. Uns 80 anos. O lugar ao meu lado estava vazio, mas era um daqueles assentos que sobem quando a pessoa levanta. Abaixei o assento pra ela sentar e ela me agradeceu com um “merci beaucoup” e um sorriso.
A viagem continuou e, umas duas estações depois, o alto-falante soltou um aviso qualquer. Eu percebi que os franceses no vagão estavam prestando mais atenção ao aviso, pois normalmente ninguém mexe nem a cabeça. Desta vez, além de mexer a cabeça, olharam para o relógio. Eu, claro, não entendi nada do que foi falado. Pois na estação seguinte a velhinha se levantou e falou alguma coisa para mim que continuava sentado. Eu respondi, com a cara mais simpática possível, o meu já famoso “je ne parle pas français”, mas ela disse mais alguma coisa e fez um gesto com a mão indicando a porta como me mandando sair. Foi aí que eu vi que o aviso havia sido diferente mesmo dos corriqueiros: todo mundo estava descendo. Lancei um “Pour quoi?” para a velhinha e ela respondeu o óbvio: “Parce que le ligne est interdite!” Ela não disse, mas eu ouvi um “oras bolas!” no fim da frase. E ainda faltavam umas 12 estações pra eu chegar perto do museu.
Mas não desisti. Andei a pé uns 30 minutos e cheguei à Tour Eiffel que era uma referência no caminho do museu. Depois de fazer umas fotos ao lado do Jardim do Trocadéro, pegando a torre ao fundo, de sentir vontade de entrar naquele chafariz enorme,  peguei a Rue de Passy e, se as direções estivessem certas, no fim dela era só pegar outra rua, cujo nome meu mapinha não revelava, que o museu ficava no fim dela. E lá fui eu por mais uns 30 minutos de caminhada. Detalhe: o verão chegou por aqui e devia estar uns 28 graus sem uma nuvem sequer no céu.

 

Claro que andar por Paris, como já disse em oura croniqueta, é um prazer a cada esquina. Além de podermos admirar a arquitetura, os pequenos jardins, há as vitrines de lojas tipicamente francesas que parecem transformar em arte tudo que vendem. Fotografei extasiado uma vitrine de queijos. Eram uns cem, todos dispostos em fileiras e do mesmo tamanho, com nomes os mais variados e preços idem nomes e preço escritos por caligrafia extremamente caprichadas. E há lojas de roupas que expõem apenas duas ou três peças e arranjam de tal forma o espaço que dá vontade de entrar e comprar.


Vai daí que as caminhadas não chegam a ser um martírio. Mas, martírio mesmo foi andar por toda a Rue Pussy e, depois de procurar e não achar o museu em tudo quanto é canto, dar de cara com o Trocadéro de novo, só que do outro lado do jardim. Olhei no mapa e não acreditei: eu tinha pegado a direção errada e simplesmente tinha dado uma longa volta no bairro todo retornando ao local de origem.
Desisti do museu, passei de novo pelo mar de turistas na torre, perguntei onde era o Metrô para um motorista de táxi que me indicou a direção. Só que era uma das estações que estavam fechadas por causa das interdições para os trabalhos de reformas ou sei lá o quê. Desisti do Metrô e resolvi pegar um táxi. Parei o primeiro que apareceu, um Mercedes novinho. Entrei e, para minha surpresa, ouvi saindo do rádio um som conhecido. Ao acabar a música uma locutora disse “TSFJazz. La radio 100% jazz”. Senti-me em casa ouvindo, no micro, a TSFJazz como faço sempre em Campinas. Comentei com o motorista, um parisiense filho de marroquinos que eu ouvia aquela rádio no meu país, o Brasil, pela internet. Ele aumentou o volume, mas não deixou de perguntar sobre futebol ao saber que sou brasileiro. Falei que estava só mais ou menos nessa Copa e ia ser difícil ganhar. Falei numa mistura de inglês com francês, nem sei se ele entendeu, mas parece ter concordado. Até chegar ao hotel deu pra ouvir mais umas quatro ou cinco músicas que aliviaram bastante o mico anterior. E antes de entrar no hotel, fui almoçar no Café Parisiense, que fica aqui pertinho. Após o almoço, que foi um (ou uma?) entrecôte fantástico, paguei com cartão e, ao vê-lo funcionar, disse, em inglês, que era bom ver o cartão funcionando, porque era do Brasil e as coisas não funcionam sempre muito bem por lá. Ela, que parecia ser a dona do local, sorriu, pensou um pouco e quis engatar uma pergunta em inglês, mas não conseguiu. Falou “and you are here...” e parou. Eu completei: “With a World Footbal Cup  in Brazil? Ela assentiu e eu disse sorrindo: “Paris is better, much better than footbal”.     

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Paris 3 – Andar por aí



Edmilson Siqueira

Andar pelas ruas, avenidas, ruelas e boulevards de Paris é uma aventura única para quem se encanta com um conjunto excepcional, com paisagens construídas pelo homem que se sobrepõe ao tempo e que, mesmo datadas em suas artes e arquiteturas passam a mensagem de solidez, tradição, perenidade e seja lá o que mais uma Torre de Saint Jacques, por exemplo, queira passar. Claro que Saint Jacques tem história e deve merecer a homenagem, mas uma torre daquele tamanho faz a alguém como eu, que nada sabe sobre o santo (sim, vou procurar no Google depois, mesmo porque o wifi do hotel pifou e estou sem internet até amanhã, que é segunda-feira, quando devo postar essa croniqueta no blog)* pensar que ele tenha sido extraordinário em seus milagres ou em suas façanhas para merecer um monumento como aquele. Que, de resto, é maravilhoso, impondo-se à distância como se fosse uma das torres de respeitável igreja.
 
Mas ali sobre o Sena, depois de passar em frente aos teatros Châtelet e De La Ville, o cenário também se deslumbra ao pôr do sol. No início do verão, quando o sol por essas plagas ainda anda tímido, as nuvens no céu constantes e na rua há gente de bermuda e de casacos, de sandália havaiana e de cachecol, o Sena pode oferecer reflexos inimagináveis. Fiquei ali na ponte vários minutos apreciando aquele deslumbre cenário e me lembrando que é a mesma posição do terracinho do apartamento em Campinas. De repente, uma barcaça com música ao vivo rasga o rio, tendo em sua parte superior homens de terno e gravata e mulheres de vestidos longos. Deve ser um casamento, pensei. Procurei a noiva, mas não encontrei...
 
A Rue de Rivoli, para onde fui logo depois, é famoso centro de compras mas, num domingo à noite é de uma tranquilidade total. Movimento mesmo só nos cafés, com parisienses já se arriscando a tomar uma cerveja pression depois das 20h. Muitos turistas, claro, mas tudo se transcorre calmamente, com direito até a emoções repentinas. Antes de deixar a margem direita do Sena, eu estava trocando as pilhas da minha máquina fotográfica, encostado na mureta com uma vista magnífica. Escutei um ‘isn’t beautifull?’ e ao me virar um pouco, vi duas americanas, vinte e poucos anos, olhando para a paisagem com os olhos úmidos, encantadas.

Mas no domingo estive no La Défense também, aquele enorme conjunto de arranha-céus que deve ter sido erguido para mostrar que Paris também tem arquitetura contemporânea. O Arco, enorme, faz a gente se sentir minúsculo e, embora não consiga achá-lo bonito, ele acaba combinando com o ambiente criado em torno, com inúmeros e altos edifícios das mais variadas formas. Fiz muitas fotos, embora a luminosidade do dia – um céu coberto de nuvens com direito a uma chuvinha que me fez entrar no shopping pra comprar um guarda-chuva que acabei não encontrando – não estivesse ajudando.

Subi os 54 degraus que nos coloca sob Le Grand Arch, parando para “apreciar a paisagem” a cada 18 deles – são três lances de 18 degraus – e, claro, respirar um pouco. Lá em cima, não do arco que, para subir nele mesmo tem elevador e acho que o serviço não está funcionando mais, se deslumbra uma outra paisagem. De frente para a praça central da Défense se avista, em linha mais que reta, o Arco do Triunfo. Claro que a construção de tudo tem um significado e há até mesmo uma outra explicação para a localização do Arco, gravada numa placa ali na sua base. Li, mas não entendi direito. Quando a internet voltar...**

No shopping existente por ali é facílimo se perder. Muitas lojas têm três andares e suas fachadas são muito parecidas e a todo momento, mesmo mudando de piso, tem-se a impressão de já ter passado por aquele corredor. Quando a fome apertou, vi um quiosque da rede Paul, que faz um sanduíche de respeito. Por 4,05 euros, saí com uma baguette recheada com presunto cru e queijo e passei a procurar a saída para comer “lá fora”. Demorou um pouco, mas encontrei e pude assim saudar um amigo que me pediu para lembrar dele exatamente nessa hora: ao degustar um bom sanduíche francês que ele aprecia muito.  

Notas escritas depois que a internet voltou:
*Descobri no Google que Saint Jacques é o apóstolo Santiago, que vem a ser o da Compostela, palavra formada por “campo” e “estrela”, pois o famoso caminho teria sido revelado a um rei que sonhou com Santiago, através da sequência de estrelas na Via Láctea. Santiago teria morrido no ano de 42 DC e a peregrinação vai até onde, supostamente, foi encontrado seu túmulo.

** Não disse que tinha um motivo?  Tá lá na Wikipédia: “O distrito (La Défense) está na extremidade ocidental de Paris, ao longo do Eixo Histórico, que começa no Louvre, no centro de Paris, e continua ao longo da Champs-Élysées, através do Arco do Triunfo, até culminar em La Défense.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Paris 2 – Reencontro com a Seize


Tirei a foto depois do primeiro gole
 
 
Edmilson Siqueira

Depois de 12 anos, tomei novamente uma 1664, apelidada aqui carinhosamente de Seize (16) num café-restaurante de Paris. Estava esperando um prato – filet mignon de porc au 5 baies avec puré de pomme de terre. E eu não sabia o que era baies. Agora já sei que baie é baía, mas não adiantou nada, embora eu já saiba que filé de porco assim vem com um molho parecido com o nosso madeira, mas mais gostoso. Enfim, estava ótimo. Quando pedi o menu, pensei que a garçonete não havia entendido, então, como ela estivesse demorando, na primeira chance pedi de novo. Ela respondeu num tom que me deu a impressão de estar de saco cheio por ter de atender sozinha várias mesas. Quando ela trouxe o menu eu disse, caprichando na pronúncia: “Je na parle pas français“. Ela respondeu rapidinho: “D’accord!” e saiu sorrindo. Menos mal.
Sob o copo de cerveja pression (é como eles chamam a cerveja vendida no copo e gelada) estava uma bolacha, não da Seize, mas sim da belga Leffe. Pensei: “Baco tá de brincadeira comigo. Chego em Paris, peço uma Seize e vem essa bolacha me lembrando da ótima cerveja belga que, na falta da francesa, tenho tomado em Campinas?” E já engatilhei uma vontade de levar a bolacha pra casa, mas não sabia se pedia ou simplesmente punha no bolso. Para qualquer dos atos, eu teria de vencer minha timidez.
Terminado o almoço, solicitei a conta caprichando de novo na pronúncia: “L’addition, s’il vou plait”. Ela sorriu confirmando que entendeu direitinho o que eu disse e, logo em seguida apareceu com a conta, 19 euros e 10 cents, que foi paga com duas notas de dez. Deixei o troco pra ela, principalmente depois que eu, pegando a bolacha na mão, disse lhe disse: “Souvenir?” Quando ela disse “Oui” eu tasquei: “Je fait collection”. Ela, sorrindo, disse alguma coisa mais que não entendi, agradeceu e eu saí do café satisfeito. Esse pedido me lembrou a Zezé que, em 2001, em Roma, disse com a maior naturalidade para a dona de quiosque: “Is it a souvenir?”, apontando para um pratinho de plástico, todo florido onde vieram os sanduíches que pedimos. Usamos o pratinho até hoje em casa.
Ao sair do café, fui recebido com uma chuvinha, como a do dia anterior, que só assusta, mas nem molha. Fui devagar pro hotel, não sem antes passar na boulangerie – sim, eu já vi várias delas por aí – e pedir 2 pains avec chocolat, que é um croissant com gotas de chocolate de recheio. Comi os dois à noite no hotel antes de dormir. Uma delícia.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Paris 1 – Tateando as redondezas


Rue Mouffetard
Edmilson Siqueira

Paris me recebeu com um solzinho quase o dia todo e uma chuvinha no início da noite. Solzinho e chuvinha assim no diminutivo porque um não estava tão quente que dispensasse um agasalho que se via em quase todo mundo na rua e a outra nem de molhar bobo era. Umas gotas aqui e ali que só serviram pra me assustar e me fazer voltar pro hotel sem a baguette recheada com presunto cru e queijo brie que um conhecido disse pra eu comer e lembrar dele. Mas tenho tempo.

Essa parte do Quartier Latin em que estou, mais perto da Mouffetard que do centro histórico do quartier, é mais aberta, poucas ruelas medievais preservadas e algumas avenidas bem largas cruzando a região. Mas tem muitos encantos para quem, como eu, baba diante de qualquer prédio centenário que esteja preservado e ainda servindo para o fim para o qual foi erguido. Vejo neles certo ar de orgulho, como a dizer para quem passa: já vivi quatro, cinco ou mais gerações e continuo firme. Claro que com outras mãos de tintas preservando ou não a cor original e servindo, muitas vezes, a outros propósitos, não menos nobres que o original. Esse hotel em que estou, por exemplo, parece ter sido construído para ser um prédio de apartamentos, seis andares, fachada igual a muitas outras. Depois pode ter passado por uma reforma interna – e tão somente interna – para dividir os apartamentos – talvez dois por andares – em vários quartos que passariam a receber hóspedes do mundo inteiro. Quarto e banheiro. Pequenos, mas quem fica muito tempo neles tendo Paris a partir do térreo?

Paris na qual pretendo flanar a partir de amanhã. Vou pegar um programa qualquer dos que selecionei ainda em Campinas, entrar no Metrô, comprar um bilhete para dez viagens – todo mundo diz que esse é o método mais barato – e me mandar. Mas não sem antes descobrir um lugar para tomar um café da manhã. Andei por aí e há vários candidatos. O problema é a confusão mental, pois todo restaurante por aqui leva o nome de café. Claro que já sei disso faz tempo, mas até hoje quando vejo a palavra “café” na fachada, penso que vou encontrar pães quentinhos e chocolates idem, além do cafezinho obviamente. Padaria é boulangerie e, geralmente, não servem cafés lá dentro. E, pra dizer a verdade, não vi nenhuma boulangerie nas redondezas nessas primeiras caminhadas. Mas vi um boteco – pelo menos tem cara de boteco – com um enorme cartaz onde está escrito café e chocolat. Acho que é lá que vou amanhã cedo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Paris, Paris



Edmilson Siqueira

Nesta quarta-feira, 25 de junho, Zezé eu estamos embarcando pras “Oropas”. Ela fará uma viagem que planeja há muito, vai conhecer Findhorn, uma comunidade autossustentável na Escócia e rever sua amada Londres, com direito a visitas a Totnes e ao Schumacher College (nada a ver com o piloto campeão). Ficará 17 dias nesse périplo e depois vai se encontrar comigo em Paris, onde estarei fazendo o enorme sacrifício de esperá-la por todo esse tempo...
Mas estou tentando amenizar o sacrifício: na bagagem levo uma lista de 19 programas que recolhi na rede entre restaurantes bons e baratos, passeios curiosos longe do turismo tradicional, uma boa vasculhada em toda Montmartre (nas outras viagens faltou conhecer melhor o velho e boêmio bairro), algumas lojas que podem render boas compras sem gastar muito e jazz aos cântaros – nos bares, nas praças e shows: há pelo menos um festival muito bom e gratuito na lista, o La Défense Jazz Festival 2014, com shows três dias à noite e cinco dias às 12h. Não devo ir a todos, mas na maioria devo estar lá.
 
Mas os programas podem ficar em segundo plano diante do meu encanto por andar sem destino, tentando descobrir cantos e esquinas que podem gerar paixões momentâneas ou fotos que só eu gostarei de rever ou mesmo apenas aquela sensação de se estar numa cidade civilizada, limpa e muito mais segura que qualquer cidade média ou grande desse nosso país.

Comprei um notebook, pequeno, para levar na viagem. Ele ficará no hotel e, quando as aventuras parisienses diárias e noturnas terminarem, tentarei registrar em texto e imagens o que vi, vivi e senti. E, em registrando, postarei neste blog para deleite de meus parcos leitores. Não sei se vai funcionar, a vontade de conhecer e rever muita coisa é grande e posso nem ter forças para, depois de um dia típico, sentar-me à frente da telinha brilhante para cometer uma croniqueta.
 
Levo também uma máquina GE (sim, General Eletric) semiprofissional, 14 megas pixels, que também filma em HD, que será a responsável por captar as imagens todas que me darão saudades nos próximos anos. E um pen-drive de 8 megas para guardar tudo sem perigo de perder. Há, claro, uma prosaica e bela cadernetinha de viagem, cheia de páginas e linhas em branco para anotar o que for preciso, usando aquela velho modo de registrar fatos com uma caneta e a própria mão.

A amigos tenho dito que esta será a última vez que verei Paris. Como já passei dos 60, alguns imaginam que não terei tempo de voltar um dia, que partirei antes para o infinito do qual não voltamos mais. Digo que o motivo é mais prosaico: aposentado, vivendo de uma renda mixuruca que a previdência me paga depois de 35 anos de contribuição e mais de 40 de trabalho, vai ser difícil juntar economias que bastem para atravessar o Atlântico e pousar na Europa. A última viagem a Paris foi em 2002, por isso acho que esta é a última, mas faço uma ressalva: não deixarei de fazer uma fezinha nos jogos de azar que o governo patrocina e, se um dia, entre as ínfimas chances que eles proporcionam, a sorte me bafejar, arrumo as malas e passo o que me resta de dias, meses e anos num país onde as paisagens construídas pelo homem são belas e conservadas e onde a civilização e a civilidade imperam.
 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A maior das devastações




Antonio Contente

Naquela manhã de 1976 as coisas corriam normalmente no departamento da Nasa, nos Estados Unidos, que recebia as imagens do satélite Skylab. Súbito o funcionário que monitorava as transmissões que vinham do espaço deu um berro:
- Meu Deus do céu!
Mal ecoou pela sala silenciosa o grito macabro, todos se debruçaram sobre a mesa do horrorizado técnico. Alguns pensando que ele avistara pedra sideral imensa prestes a colidir com a Terra. Outros que detectara flotilha de discos voadores preparando-se para ataque. Não se tratava de nada disso, porém: o que o satélite acabara de detectar é que se desenrolava naquele instante, em extensa área da floresta amazônica, no sul do Pará, a maior queimada que os olhos humanos jamais tinham visto.
Não demorou muito os americanos enviaram as imagens medonhas para o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em São Paulo. Onde os tupiniquins também colocaram as mãos na cabeça. Alguém instalara sucursal do inferno numa área em que a floresta era não só absolutamente virgem, porém constituída por árvores de madeiras nobres, algumas com centenas de anos.
Bom, mas o IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, hoje Ibama) achou que a empresa que cometeu a barbaridade deveria ser multada. E foi, com penalidade jamais  aplicada. Até porque, segundo dizem, seria maior do que o empreendimento que estuprava a jungla.
 
Pois é, isso tudo, que faz parte da tenebrosa história dos desmatamentos na Amazônia, andou sendo relembrado no momento a propósito do recente lançamento de um livro autobiográfico do ex-executivo alemão Wolfgang Sauer, que durante muitos e muitos anos dirigiu a Wolkswagen em nosso país. Companhia esta responsável por quase matar do coração, já lá se vão 37 anos, os técnicos da Nasa.
Bom, esta parte do desmatamento não aparece bem na obra acima citada, cujo nome é “O Homem Volkswagen – 50 anos de Brasil” (Geração Editorial, 527 páginas). De todo modo, está no cartapácio a maior parte de como a empresa que fabricava e fabrica ótimos carros resolveu investir na Amazônia. Para isso, Sauer esteve em 1973 com o ministro Rangel Reis, que deu o aval para o projeto da superfazenda para criação de bois, esperando levar fugitivos da seca nordestina para lá. Mas o que Sauer realmente queria, segundo voz corrente hoje, era solidificar seu nome, com o sucesso da criação de bovinos, para chegar à presidência mundial da Volks. A empresa, então, comprou 140 mil hectares, no sul do Pará, para a instalação, num primeiro momento, de 60.000 bois.
O resultado disso tudo foi que o susto do pessoal da Nasa no passado de repente se transferiu para a cúpula da Volks em Berlim quando, em função de queimada, talvez nunca igualada até hoje por seres humanos, mobilizou o Partido Verde germânico, atiçando protestos dos ecologistas do mundo inteiro, inclusive do Brasil. O pessoal, em passeatas por inúmeras cidades em vários continentes, começou a berrar que a Volks estava empenhada em destruir a Amazônia e, com isso, segundo afirmavam, “eliminar o oxigênio do planeta”, pois o fogaréu era tudo que o demônio queria para tirar da selva do Norte do Brasil sua condição de “pulmão do mundo”.
Quando os dirigentes da Volks perceberam que a pregação pelo boicote dos seus carros crescia a olhos vistos, trataram de se desvencilhar a fazenda brasileira, o que degenerou em articulações complicadas que levaram o projeto megalomaníaco para o buraco. Era mais um que falhava na Amazônia, como o que já contei aqui a respeito da Fordlândia que fez Henry Ford rasgar, junto às barrancas do rio Tapajós, nos anos 20, 30 e 40, algo como bem mais de um bilhão de dólares a valores de hoje.
 
Voltando ao livro de Wolfgang Sauer. Naturalmente o autor é apresentado como empreendedor de alta estirpe, o que realmente revelou através de suas ações na Volks brasileira. Mas o fato de ter, como diz o vulgo, quebrado a cara no projeto de colocar ruminantes bovinos para mugir, aos invés de construir automóveis, de alguma forma mexeu pelo menos com  um pedacinho da sua imagem de eficiência. Mácula, aliás, muito bem posta em artigo do jornalista Lúcio Flávio Pinto, no seu excelente “Jornal Pessoal”, editado em Belém, quando diz em trabalho sobre o tema focalizado nesta crônica: “Talvez Wolfgang Sauer tenha sido visionário no polo industrial paulista, o maior do continente. Na selva amazônica ele foi um devastador”.

sábado, 29 de março de 2014

Há meio século


Edmilson Siqueira

Eu tinha 12 anos, estava na segunda série B do ginásio no Colégio Estadual Culto à Ciência. Ali pelos dias de fim de março ou começo de abril, cheguei à escola com uma vaga esperança de que não haveria aula. Antes de sair de casa, tinha ouvido no rádio que estava acontecendo uma revolução (no rádio não se falava em golpe) e que havia movimentação de tropas do Exército pra cá e pra lá.
Minha mãe não me recomendou nada além dos conselhos normais, cuidado no ônibus, presta atenção nas aulas etc., ela mesma totalmente alheia aos acontecimentos. Aliás, o rádio ficava ligado para nos informar a hora a todo momento – era o programa A Hora do Trabalhador, “uma hora de alegria pra quem sua todo dia”,  que começava às 7 da manhã,  meia hora depois de eu sair da cama, morrendo de sono, como sempre.  Naquele dia o rádio deu notícias mais vetustas, o locutor falando com a voz mais encorpada e eu percebi que havia alguma coisa diferente.

“Dona Celina, vai ter aula hoje?”
“Claro que vai, menino. A confusão é lá no Rio Grande do Sul, aqui tá tudo bem”. 

Esse foi o diálogo que mantive com a inspetora de alunos, dona Celina Mesquita, e que acabou com a minha esperança de folga naquele dia.
Os dias seguintes foram normais. Ficamos sabendo que o presidente Jango havia sido deposto e que os militares estavam governando o país.

Em casa não me lembro de ouvir qualquer coisa sobre o golpe. Nem percebi que minha mãe e minha irmã mais velha pegaram vários papéis que meu pai mantinha dentro do guarda-roupa e fizeram uma fogueirinha no quintal. Perguntei a elas o que era e não me lembro da resposta exata. Mas fiquei sabendo depois que eram folhetos de propaganda comunista. Meu pai era amigo de alguns comunistas em Campinas e, às vezes, levava, em suas viagens para Marília, Bauru, Rio Preto, Bebedouro e Barretos - as cinco cidades às quais ele ia a trabalho, comandando um carro dormitório da Companhia Paulista de Estrada de Ferro - encomendas que eram entregues a um emissário na estação de destino. Alguns exemplares dos folhetos ele guardava em casa. Viraram cinzas provocadas pelo temor de que a repressão baixasse por ali, o que jamais ocorreu.
Quando o governo militar já estava instalado e os partidos proibidos de existir, meu pai me mostrou a carteirinha do sindicato. Nela havia uns rabiscos meio estranhos sobre os dados oficiais. O velho explicou: “Um dia, antes de 64, o Luiz Carlos Prestes viajou no trem e eu pedi um autógrafo pra ele na carteirinha do sindicato. Depois da revolução, eu disfarcei a assinatura dele, fazendo mais uns rabiscos por cima”.

Os festivais de música, que começaram em 65, me informaram que alguma coisa estava errada no país. Eu já amava os Beatles e iria amar os Stones muito em breve, mas gostava daquele pessoal que cantava na tevê músicas que falavam mais dos nossos problemas e das nossas esperanças. Os festivais desvendaram um novo mundo, em que ser contra o governo era a regra e na escola, a proibição de estudante ir a passeata com o uniforme era um sinal de que nós, jovens, estávamos tentando fazer alguma coisa.
Em 1968, eu já lia o Pasquim e o Jornal da Tarde. No primeiro, me divertia e aprendia com mestres do humor e do desenho e com os finos textos de Millôr, Sérgio Augusto e Paulo Francis entre outros. No segundo, passeava na ágil e moderna diagramação, preenchida com ótimas reportagens de uma seleção notável de jornalistas. E já entendia, aos 16/17 anos o que as receitas de bolos que surgiam de repente no meio do jornal queriam dizer.

Foi em dezembro de 68, o famoso "ano que não terminou" que a ditadura começou realmente, com o Ato Institucional nº 5 que deu poderes totais aos donos do poder e acabou com a vida parlamentar por um bom tempo. Foi aí que eu percebi que a liberdade era o bem maior que a gente teria que defender e a democracia era parte essencial dela. Foi aí que eu passei a pertencer a uma minoria que queria o fim da ditadura. Minoria? Sim. O povo, em sua grande maioria, não estava nem aí: se a economia não atrapalhasse sua vida, os políticos todos, os estudantes todos, os terroristas todos, os torturados todos e os assassinados todos que se danassem. Parece hoje, com a diferença que os torturados são presos comuns e os terroristas daquela época estão nos governos junto com os corruptos. E com a diferença também que eu posso escrever tudo isso e não ser preso. Pelo menos por enquanto.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Seis personagens



Edmilson Siqueira

Golé Marciano, Jota Toledo, Helder Bittencourt, Izildinha, Paulo Martinelli, Eustáquio Gomes.  O que eles têm em comum além de já terem nos deixado? A idade. Todos em torno dos 60 anos, o que é considerado hoje em dia morte praticamente prematura. 
Golé Marciano, jornalista, ótimo papo e grande figura, sempre atento aos amigos, não se importava em comer o que desse vontade e era relapso a médicos, regimes e colesteróis em geral. Assim, o garçom acabou trazendo a conta da vida meio relaxada rápido demais. Ele merecia curtir mais um pouco e nós merecíamos um pouco mais de Golé.

Jota, artista multimídia antes da era da informática, surrealista em vida e nas artes, não resistiu ao fato de o corpo ter fraquejado quase que definitivamente às doenças que o atormentaram desde cedo e aos cigarros e uísques que consumiu em doses elevadas por mais de 40 anos. Ao caminho inevitável do sofrimento, preferiu dar um fim na vida e levar com ela a dor que a tornava insuportável. Nada contra ele decidir por ele mesmo, mas seria bom ter Jotinha ainda hoje por aí, nos telefonando nas horas mais absurdas, ele que trocava o dia pela noite.
Helder, o sambista que tanta alegria nos trouxe, marcando nossos peitos com a batida certeira do seu surdo, preferiu viver a vida em sua totalidade a se fechar em copas e em remédios para tratar de doença grave. Às pílulas e regimes, preferiu a noite e a cerveja. Foi uma escolha também e merece de mim todo respeito, embora a dor causada aos que ficaram tenha sido enorme.

Izildinha, amiga que não via há tempos, pois vivia em São Paulo ao lado do querido Januário, estava cheia de planos, já que o marido agora tinha um pouco mais de tempo para as coisas mundanas e essenciais à felicidade. Um câncer a alcançou na esquina e impediu-a de prosseguir o caminho.  Não foi escolha, foi destino, foi fatalidade, foi injustiça.
Paulo Martinelli, jornalista que, sentando à minha frente na última redação que frequentamos, mais concordava que discordava de mim – o que era raro naqueles tempos -, era o que podíamos chamar de aventureiro. E intelectual a seu modo. Ah, discordávamos das mudanças climáticas ou aquecimento global, o que gerava deliciosas discussões que estariam vivas até hoje, não fosse a surpresa, a terrível surpresa de um ataque cardíaco. Agora, quando tomo uma Coca-Cola (o que faço apenas a cada três ou quatro meses) não é com o mesmo prazer: ela me lembra do Martina, toda noite na redação, a comer um xis bacon ou algo parecido, tendo ao lado a latinha, não a light ou a zero, mas a original.

E agora o Tatá, cuja morte encerrou o sofrimento – que não se sabe se ele sentia ou não – de longos anos de estragos irreversíveis provocados por um AVC. É certo que estava melhor, mas um amigo comum, que fora íntimo dele, me revelara: foram acidentes vasculares dos dois lados do cérebro e não haveria retorno mais do que ele alcançara até aqui: não falaria mais, compreenderia pouco e dificilmente abandonaria a cadeira. Eustáquio Gomes se foi deixando obra invejável pela qualidade do texto, pela criatividade e pelas amizades que semeou. (Leia nos comentários, informações mais precisas sobre Eustáquio Gomes, enviadas hoje, 24/02/2014, para o blog).
Enfim, são seis personagens que se foram antes do combinado ou mesmo sem nada combinar. Não vão nos acompanhar mais nessa aventura humana pelo planeta. Não creio em outras vidas, em paraísos ou qualquer coisa após a morte. Ficam a alegria das lembranças e a dor da saudade. Com elas continuamos vivendo até nos tornarmos também lembranças e saudades, alegrias e dores.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Jane Russell





Antonio Contente
No tsunami do enorme noticiário sobre a morte de Elizabeth Taylor, de repente lembrei: faz pouco mais de mês que outra famosa atriz, Jane Russell, também se foi. Claro que a intérprete de “Cleópatra” ocupou e ocupará lugar muito maior na história do cinema. Para isso, afinal, contou com enorme talento dramático que lhe rendeu dois Oscars, beleza absolutamente deslumbrante, olhos de profundo azul-violeta e vida animadíssima, crivada de maridos, amantes, doenças monumentais, bebedeiras homéricas etc. O que torna ainda mais curioso o fato de Jane, mesmo sem talento algum, sem beleza de tirar o fôlego ou vida pregressa borbulhante, ter marcado também de forma razoavelmente luminosa sua presença no cenário da chamada Sétima Arte. Por apenas um simples e bom motivo: ao estrelar “O Proscrito”, de 1941, seu filme mais cultuado, explodiu nas telas a exibir, através das aberturas de decotes, aqueles que foram considerados os seios mais bonitos, mais perfeitos, de quantos, então e até hoje, provocaram suspiros nas salas de exibições e também fora delas.


A explosão de Jane Russel quando Liz ainda nem tinha dez anos de idade (havia entre as duas uma década de diferença), foi, realmente, big-bang de muitos megatons. Primeiro que o produtor/diretor da obra que a lançou, o milionário Howard Hughes, descobriu a beldade nos dias em que ela era atendente de um dentista; ao resvalar, claro, seus olhos de lince pelo colo da incandescente moçoila. Segundo, que o filme com o qual o ricaço a catapultou para a fama esteve envolvido em algumas polêmicas. A principal, naturalmente, girando em torno das protuberâncias mamárias da morena. Que a censura americana, de cara, vetou, o que fez tardar o lançamento nos EUA. Aqui no Brasil, só pintou no pós-guerra, ali por 1946. Entretanto, o assunto Jane Russel já havia tomado conta do mundo. As fotos com destaque para o exuberante colo passaram a enfeitar paredes e portas de armários nos quatro cantos da terra. E até as duas montanhas mais importantes do Alaska, gelado Estado Americano, receberam o abrasador nome de Jane Russell’s Peaks. E para provar que a febre pela peituda atriz atingiu também o Brasil, lembro que o mais popular poeta nacional da época, equivalente a Vinicius de Moraes anos depois, chamado J.G. de Araújo Jorge, dedicou derramado poema aos mamilos da estrela, afirmando, em certo trecho: “Florações róseas de uma carne em flor/ Que se ostenta a tremer em dois botões”...


O que me passa então pela cabeça é que se, além dos lindos seios, Jane também tivesse o talento de Liz, teria sido o apocalipse. Agora, com o tema em pauta, queria dizer que o filme da Taylor que mais gosto é “Um Lugar ao Sol”, de 1951, ano em que Jane só resistia ainda graças à beleza das glândulas mamárias responsáveis, em 1953, por sua participação no badalado “Os Homens Preferem as Louras”, ao lado de Marilyn Monroe. Sobre “A Place In The Sun”, pego carona num comentário que li faz alguns anos no “Harper’s Bazaar”. O resenhista recordou que no romance que inspirou a citada produção, “Uma Tragédia Americana”, de Thedore Dreiser, o personagem George Eastman, vivido espetacularmente no celuloide por Montgomery Clift, realmente mata Alice Tripp, vivida por Shelley Winters. Na adaptação cinematográfica o diretor George Stevens colocou o episódio de forma meio ambígua, abrindo a possibilidade de que a morte da criatura poderia ter acontecido por acidente. E isso foi muito bom para a saga filmada, pelo ar de dúvida que implantou. Aliás, Stevens também mexeu na história original de outro grande trabalho seu, o clássico “Os Brutos Também Amam”. Na novela de Jack Schaefer transformada no filmaço, a atração entre Shane (Alan Ladd) e Marian (Jean Arthur), a esposa do dono da fazenda, é não apenas insinuada, aparecendo como algo, digamos, explícito. O gênio de Stevens, porém, ao lidar com o delicado tema na tela fez com que fluísse de forma singela, porém a não deixar dúvidas. Exposta, por exemplo, na cena em que Marian, filmada a passar pela janela da sua casa que dava para o terreiro onde se encontrava Shane, lança a ele um olhar. Tão delicadamente tórrido, que explicitou o intercurso de cinco horas seguidas no lusco-fusco de um escondido quartinho, com vasta cama de casal, no âmago das pradarias do velho Oeste. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A rifa


 

Edmilson Siqueira
Meu amigo Antonio Contente, que divide essas bissextas crônicas comigo, vai gostar da história que relato a seguir. História genuinamente verdadeira, apenas com nomes trocados porque os personagens ainda podem estar por aí e, como diria Contente, caldo de galinha e precaução são bons até em Belém do Pará. Pensando bem, acho que ele não diria isso, pois costuma colocar o nome dos amigos nas crônicas e inventar as histórias. Ele inverte o processo e o nomeado que se vire...

Bom, foi numa conversa dessas que a gente costuma dizer que joga fora, que conheci a história seguinte. Aconteceu entre os amigos de um velho ponto de táxi num antigo bairro da cidade. Naquela época, como não havia os serviços de chamar táxis a partir de uma central telefônica, havia menos corridas e os motoristas passavam mais tempo no ponto, jogando um baralhinho e, claro, se conhecendo muito mais. Assim, fiquei sabendo que Jairo, o coordenador do ponto, era mulherengo que só vendo. Bom de papo, quando uma passageira mais ou menos ajeitadinha entrava no seu táxi, os amigos já se olhavam como cúmplices. Ao virar a esquina, as apostas surgiam e era difícil achar alguém que apostasse contra o Jairo e sua fina lábia.  
Osmar, o amigo que me contou a história, informou também que a mulher de Jairo – sim, ele era casado há vários anos – era ciumenta demais. “E com razão”, acrescentou. “Jairo não perdia corrida, se é que você me entende”.

Pois não é que um dia o telefone do ponto tocou, Jairo atendeu e, assim que desligou, disse para os colegas: “Não volto mais hoje”. Como ainda eram duas da tarde, todos pensaram a mesma coisa: “Aí tem...” E tinha mesmo. Dia seguinte Jairo contou a novidade: “A mulher que ligou ontem é uma ricaça que eu peguei um dia lá no Tênis Clube. Não é viúva, mas o marido estava junto e no maior caco. Foram brigando no táxi, em voz baixa, mas eu ouvi tudo. O cara não dá mais no coro de tanto que bebe. Quando eles chegaram, ali na Nova Campinas, fiz questão de descer, abrir a porta pra ela e admirar aquelas belas pernas. Ela percebeu e mostrou mais ainda. O marido estava descendo do outro lado, quase caindo e eu aproveitei e lhe dei um cartão meio escondido. Ontem a Maria Helena – é esse o nome dela - ligou”.
“E aí?”, perguntaram os quatro atentos ouvintes.

“Aí”, respondeu Jairo, peito meio estufado, se esforçando um pouco para esconder a barriga, “ela saiu de casa sozinha, com um vestido mais generoso que o da primeira corrida, sentou no banco traseiro sem se importar com as pernas à mostra e disse que o marido estava viajando a negócios, São Paulo, Rio, por aí e só voltava em dois dias”.
Os amigos taxistas esfregaram as mãos: “E aí?”

Jairo fez cara de vencedor: “Aí fomos para um motel e passamos a tarde toda lá”.

O caso já durava um mês quando Jairo chegou ao ponto de manhã e saiu do carro com uma caixa na mão. Mostrou aos amigos: “Olha só o que ela me deu”. Era uma camisa importada, de pura seda, coisa de ser comprada com muitos dólares naqueles anos de inflação louca. Não era pra taxistas como eles que ficaram de boca aberta admirando o presente. Mas Jairo estava triste: “Como vou chegar com isso em casa? A patroa me mata, não vai acreditar se disser que comprei, vai querer ver a nota, vai querer saber o preço e vai descobrir que é coisa fina demais pro meu bico”.
Foi então que Osmar, que já abandonou a carreira de taxista há mais de 20 anos e vive de próspero comércio no Centro de Campinas, me disse que deu uma sugestão genial pro preocupado Jairo: “Faz uma rifa”.

“Como assim, vou rifar a camisa?”
“Não. Você compra uma cartela dessas com nome de mulheres na frente e atrás, aquelas do Heitor dos Prazeres, de Jandira, abre o lacre, vê o nome vencedor e assina nele. Daí a gente preenche o resto como se tivesse comprado a rifa. Aí você chega em casa com a cartela e diz que ganhou a camisa na rifa”.

“Você é um gênio, Osmar! Salvou minha vida!”
Na volta da corrida seguinte, Jairo já chegou com a cartela na mão, com o lacre rompido e com seu nome no quadradinho da Marcela, era esse o nome vencedor. Os outros 99 quadradinhos da cartela foram preenchidos pelos colegas, que, além dos próprios nomes, inventaram mais um monte deles. Ao sair para a última corrida do dia, Jairo agradeceu a todos eles, “vocês são amigos de verdade”.

Dia seguinte, de manhã, Jairo foi o último a chegar no ponto. Os amigos o cercaram: “E aí?”
“Aí que deu merda!”

Ouviu-se um “por quê?” uníssono.

Jairo sentou no banco e começou a falar, voz baixa, mas firme: “Vocês sabem que minha mulher é ciumenta, né? Pois quando lhe mostrei a rifa dizendo que ganhei, ela me perguntou por que eu não assinei Madalena, que é o nome dela. Eu não sabia o que dizer. Aí ela me perguntou quem é essa tal de Marcela. Eu disse que era ninguém, foi só um palpite. ‘Cês acham que ela acreditou? Já desconfiada, pediu pra ver a camisa. Pô, vocês sabem que eu sou grande, tenho quase dois metros e estou meio gordo, meu número é 'Extra GG' e a camisa da rifa era exatamente o meu número! Aí foi demais! A camisa virou picadinho e eu acabei dormindo num hotel. Sozinho. E tem mais: quando a Maria Helena me deu a camisa, marcamos pra hoje à tarde, que o marido foi viajar de novo. E ela falou: não me apareça se não estiver com a camisa!”

sábado, 21 de setembro de 2013

Chove. Chega a Primavera



Antonio Contente  

       Há doces magias nas chuvas desta época do ano. A que agora cai começou há pouco e desaba sobre a Chácara da Barra trazida por ventos que sopravam, até há pouco, dos lados da D. Pedro, via tantas vezes percorrida quando busco o mar. É inevitável falar que vem, do quintal, o bom cheiro da terra molhada. Também é inevitável lembrar que o tronco da grande sibipiruna que se ergue suprema em frente da casa, uma vez umedecido deixa que escorra, entre seus nódulos e cascas, uma forma de alegria a conduzir, consigo, as seivas da vida. Sou, por todas as formas, um homem marcado pelas águas. Desde o elemento do meu próprio signo que me foi revelado pelo bruxo Geraldo Garcia, íntimo de astros e estrelas, até o lugar em que nasci, no âmago da Amazônia, uma beira de rio que adormece e acorda entre marés, correntezas e claridades.

       Mas esta chuva que cai, eu dizia, traz consigo as canções de sentimentos e histórias. Poucas coisas são tão simples, porém tão estimulantes, como ver a água transformada em gotas brilhantemente dilaceradas a escorrer dos beirais antigos. Há, nas casas velhas, o húmus da síntese dos sonhos. E elas se tornam eternas em tardes como esta, em que a grande chuva que o mar nos mandou cai das telhas debruçadas sobre o corredor posto entre o muro de heras e as paredes do aconchego. Os beirais, saibam, guardam, em suas entranhas, os cantos dos bem-te-vis e o benfazejo das auroras. Os beirais, por onde resvalam brisas e poeira de estrelas, retêm a filosofia das idades. Benfazejos são os pingos que ficam caindo quando a chuva se torna menos que chuvisco. E é ali que os passarinhos deste simpático bairro campineiro vêm beber sabendo, muito melhor do que eu, que o verdadeiro tempo de beleza é deles e da síntese de seus voos.

      A chuva é a canção que o tempo compõe no pentagrama das horas que comovem. Aqui estou, de ouvidos atentos, sentindo no ar os bemóis e sustenidos de certa modinha antiga, muito, muito antiga. Coloco a mão para fora da janela aberta, e sinto na pele o frescor da sonata e o moderato do compasso inesperado. Ah, em que tempos ficaram os meninos que vinham se banhar nas águas que caíam dos beirais? Em que tempo estão as buganvílias escandalosamente vermelhas, que mais vermelhas ficam com o despejar de céus que se liquefazem como este exatamente agora?

       Quando a última gota se desprender deste beiral, chegará a hora de colher as belezas que ficam após os aguaceiros. Andaremos, então, sobre as calçadas molhadas. Colheremos, sem sobre elas colocar os dedos, a umidade que resiste nas folhas dos jardins, e que logo mais à noite se tornarão pedras preciosas no sentimento do orvalho. Somos, assim, tocados pelas canções desta chuva de setembro, poucos dias antes da chegada da Primavera. E ali na praça, quando a brisa do anoitecer bater, as luzes dos postes, refletidas nos galhos, serão as pepitas de ouro deste tesouro que eu, pirata de tantos mares, esconderei na ilha aonde cheguei levado pelas linhas da vida de tuas lindas mãos. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma grande fria


Edmilson Siqueira

O portal do Estadão, através da Eldorado FM, está realizando uma enquete para que seus leitores votem na música que eles consideram o maior clássico brasileiro de todos os tempos. E para facilitar o trabalho de todos – do leitor e do jornal – expõe uma lista com 50 músicas adrede escolhidas.
Elaborar uma lista de cinco, dez, vinte, cinquenta, cem ou mesmo mil melhores de qualquer coisa já é um problema. Isso porque a lista é elaborada a partir de opiniões e, mesmo sendo opinião de gente que entende do assunto, a lista nunca satisfará todo mundo. Em segundo lugar, há que se ter um critério. No caso, me parece que houve algum – as músicas mais conhecidas dos autores mais conhecidos, ou algo parecido. Mas aí surge mais um problema: todos os grandes compositores brasileiros têm umas dez ou vinte músicas que muita gente julga clássicas, definitivas, perfeitas – e com razão. E há muitos outros problemas, como o do compositor de uma música só, um clássico, claro, mas só aquele. Eu poderia citar, de cabeça, uns quatro ou cinco autores que só são conhecidos por uma música. Por exemplo: Niltinho Tristeza, que tem esse nome exatamente por causa do clássico “Tristeza”, (pareceria com Haroldo Lobo) sucesso na voz de Jair Rodrigues. Pois desafio o leitor a dizer, sem olhar no Google, outra música dele. Mas ele não está na lista. E os parceiros de Aldir Blanc no mais que clássico “Amigo é pra essas coisas”? Essa música também ficou de fora... Mas quem está, e com justiça por sinal, é Silvio Rochael Cassiano. Sabe quem é? Agora vai saber: foi ele quem compôs aquela beleza chamada “Primavera” que Tim Maia eternizou.

Há alguns anos a Rede Globo se arvorou a fazer um programa classificando as melhores músicas brasileiras, numa lista que ela também julgava definitiva. Ganhou “Carinhoso” (que é, realmente, uma unanimidade, mas ser a melhor de todas é altamente discutível). Pois nesse programa com “as melhores músicas brasileiras de todos os tempos”, Adoniran Barbosa ficou de fora e quase que João Bosco e Aldir Blanc também ficam. A dupla foi encaixada no fim do programa, mas a ausência do Poeta do Bixiga só foi descoberta depois de o programa ter ido ao ar. Parece que houve uma homenagem posterior, mas a emenda piorou o soneto.
Adoniran, por sinal, nessa lista aparece com “Trem das Onze”, que, claro, merece estar em qualquer lista das melhores de todos os tempos. Mas e “Saudosa Maloca”? E “Vila Esperança”?

Por essas e por outras, muitas outras por sinal, é que elaborar listas para tentar descobrir qual é a melhor música, mesmo que se elenque 50 delas, é fria. Se valer a popularidade ou a vendagem de discos, por exemplo, periga a dupla Roberto/Erasmo, que comparece com duas músicas na lista, ganhar de Jobim, Cartola, Chico e outros cujas obras estão anos luz à frente dos heróis da jovem guarda no quesito qualidade, mas que venderam muito menos e tiveram muito menos públicos em seus shows.
Na época dos festivais da Record, a briga já era grande. Os programas mobilizavam a moçada do Brasil inteiro e, por um mês, não se falava nas escolas. No dia seguinte ao da final, no velho Culto à Ciência de Campinas, onde eu estudava, até aulas foram interrompidas para se discutir qual era melhor: Banda ou Disparada.

A lista da Eldorado é boa, não há dúvida, mas passando por ela atentamente, senti falta, assim, de cara, de uma dez ou vinte músicas tão clássicas para a MPB quanto qualquer uma das listadas. Jobim comparece com seis, uma sozinho e as outras cinco com seus parceiros – Newton Mendonça, Vinicius e Chico. É o que mais tem músicas na lista, mas “Insensatez” – sucesso mundial até hoje, com dezenas de gravações pelo mundo afora, não consta da lista. E da parceria com Chico, está “Eu Tem Amo”, sem dúvida um clássico. Mas e “Retrato em Branco e Preto”, cuja gravação só com orquestra (sem a letra do Chico), com Jobim ao piano, numa catedral em Nova York, recebeu, ao fim, aplausos em pé de toda a orquestra, comovida pela beleza da melodia?
Realmente, fazer listas para escolher melhores músicas, filmes, livros, quadros, qualquer coisa que dependa do gosto de uma pessoa ou de um grupo é uma grande fria.

domingo, 23 de junho de 2013

Ah, o tempo...


 
Antonio Contente

Ao ler a bem bolada entrevista do cronista Edmilson com o cantor e compositor, constatei mais uma vez: de fato há certos acontecimentos que, levados para o lado da fofoca, adquirem certa aura filosófica. Pensando nisso, me larguei a navegar sobre o episódio que na época ganhou inúmeras manchetes. E tornou a dançar em minha mente o ocorrido entre as ondas da praia do Leblon, no Rio, na manhã em que fotografaram o compositor Chico Buarque de Holanda atracado, aos beijos e abraços, com a bela mulher. No entreato, minha reflexão transitou muito menos sobre o mexerico em si e mais sobre o efêmero das coisas, de como a juventude, este doce pássaro que já virou filme e peça de teatro, graças ao talento de Tennessee Williams, voa rápido para éteres incertos e não sabidos. O flagrante do compositor e da guria quase ofuscou totalmente as notícias que falavam então de Severino, o formidável presidente da Câmara Federal – lembram? --- extraordinário presente que, junto com Lula, Pernambuco deu ao Brasil. O que se disse na ocasião foi que a moça flagrada com o autor de “Carolina” seria casada e que o marido, apontado como criatura violentíssima, estaria azeitando o tresoitão para alvejar o maduro e charmoso Don Juan.

No passado remoto as pessoas costumavam garantir que o tempo é o senhor da razão. Bastou, assim, que a ampulheta vazasse um pouco mais de areia para que novas nuances do rumoroso caso viessem à tona. A melhor acho que foi a entrevista que o marido corneado, inicialmente apontado como fera, deu para a colunista Mônica Bergamo, da “Folha de S. Paulo”. Certamente uma desfrutável matéria. Pela simples e boa razão que o tal esposo, no papo que manteve com a jornalista, revelou ser dono de mansidão de cambaxirra. A demonstrar que jamais seria capaz de alvejar uma simples formiga, quanto mais o estrelado compositor.

O ponto da entrevista que prendeu minha atenção, e que veio ratificar o quanto o tempo passa rápido, acabou sendo o fato de o rapaz reconhecer que Chico, subitamente travestido de Ricardão, poderia, de fato, estar apaixonado pela mulher dele. E que seria, como se dizia antigamente, de bom alvitre que fosse procurar parceira condizente com sua idade. Criatura facilmente achável em alguma clínica geriátrica, segundo garantiu o elástico traído.

Santo Deus, amigos, aí descobri o quanto o tempo passa! Pois no começo dos anos sessenta, setenta, Chico Buarque era, para a turma da minha geração, o símbolo acabado da juventude, a força maior capaz de abalar os alicerces da ditadura que nos asfixiava. Todavia, de repente, o garoto que arrastava multidões aos auditórios, agora entrado no rol dos quase septuagenários, foi aconselhado, ironicamente por um cara que devia ter, na manhã da corneação, a idade que o encanecido rufião tinha na época em que compôs “Sabiá”, a procurar um asilo a fim de capturar alguém para preencher seus dias e conceder calor às suas inspirações. O que, em última instância, me deixou em desconfortável situação, pois sou pouco mais velho do que Chico Buarque.  Será que devo, também, catar eventual parceira em algum retiro para membros da quinta idade? Tudo bem, até vou. Só se puder, claro, levar pra casa alguém com a estampa da Vera Fisher ou, em última instância, da Sophia Loren. Isso porque a primeira já passou dos sessenta, não é mesmo? E a segunda, a trafegar pelos setenta e lá vai fumaça, poderia até me demonstrar, na prática, se é realmente nas panelas velhas que se faz comida boa. Como fundo musical, “Anos Dourados”...

PS – Gostaria muito de saber, e se alguém puder matar minha curiosidade, por favor, pode fazê-lo por aqui: o marido corneado por Chico, após perdoar a traidora, permanece até hoje com ela?