segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O irlandês dos lugares incomuns


Antonio Contente

Pelas barbas do profeta!, como não lembrar de McCallum, o irlandês, no já andar deste criativo outubro. Afinal não foi outro, senão o gringo, a me mostrar, pela primeira vez, que é às brisas deste mês que as sibipirunas de Campinas em geral, da Chácara da Barra em particular, espalham pepitas d’ouro pelo ar e pelas calçadas.

Ora, amigos, façamos, antes de mais nada, merecidas louvações àquilo que os cultores dos preciosismos do estilo criticam como sendo “lugares comuns”. Com que prazer me refiro às florinhas amarelas, que as amadas árvores dispersam, como pepitas do mais puro ouro a tornar ruas, vielas, jardins, telhados ou mesmo restritos altos de muros, em repositórios de sagrados tesouros.

Sim, falava de McCallum, o irlandês, velho amigo que por aí segue, correndo mundo, mas foi meu parceiro de copo em tantas tardes nos belos tempos da rua de Cima, caminho de Santiago de Compostela que me levava da casa ao bar da esquina. Sábio homem de português perfeito na sua intimidade com inúmeras línguas. Quantas vezes, da cadeira do buteco com sacada para a noite, onde sentávamos, chamou-me atenção para os luares que se derramavam sobre asfaltos, galhos ou beirais curvados à espera das águas.

— Veja, me disse certa ocasião: — aí temos o céu, neste plenilúnio, cobrindo de prata, de argênteo, a pequena paisagem deste instante que necessitamos para viver.

Ora, amigos, benditos os que seguem chamando luar de plenilúnio, ou que não se importam de denominar, com todas as letras, de argênteas as luzes que as circunstâncias de uma lua que vem da Ásia depositam em mentes e corações.

McCallum agora, pelas notícias que dele recebo sempre, via e-mail, está residindo em Bhaktapur, cidade fundada no século XII no Vale do Katmandu, no Nepal, tornada Patrimônio da Humanidade nos idos dos anos 70 do século passado.

Garantiu-me que já fala com certo desembaraço a língua local, o newari, a ponto de nela fazer orações ao deus Ganesh. Utilizando-se dos maravilhosos lugares comuns que os intelectuais odeiam mas eu adoro, me disse assim, em outra mensagem:

“Meu amigo, a lua, aqui, nasce sempre como um disco de prata. E de prata é o caminho de luz que traça sobre o lago Runishá onde as brisas, perfumadas como os cabelos da amada, chegam sopradas pelos anjos”.

Na Chácara da Barra d’outrora o aventureiro irlandês só se referia aos passarinhos do bairro como “alados príncipes dos céus”. Certa tarde, quando eu percorria o Caminho de Santiago de Compostela ao contrário, ou seja, do bar para casa, eu o vi a gesticular junto dum muro perto da mansarda em que morava. Fui chegando devagar e percebi, sem identificar direito as palavras, que falava em inglês. Não resisti e indaguei: “Falando com alguém ou sozinho”? Ao me olhar, respondeu: “Você não está vendo? Converso com nosso amigo sanhaço”.

— Mas em inglês?, respondi.

— Você é que pensa que ele só entende português. Passarinhos sacam o que queremos pela entonação do que dizemos.

— Bom, retruquei, olhando em volta: — não estou vendo sanhaço nenhum.

— E você acaso acha que, para falar com eles, os bichinhos precisam estar aqui?

Ontem de manhã, na rua Pereira Barreto, observei, entre as muitas sibipirunas, uma absolutamente a explodir em flores. Os tufos que galhos formavam eram simplesmente inusuais. Pois, na parte de baixo, predominava só o verde forte das folhas. Porém, ao subir, elas como que se arredondavam formando espécie de balão, como os que flutuam na Capadócia ou em Porto Feliz. Parando, pálido de espanto, para admirar, vejo que o verdadeiro globo terrestre de florinhas amarelas soltava, em doses certas, pétalas ao vento.

Como diria meu amigo McCallum, pepitas de ouro a se dispersar à luz da manhã não para o nada, sim para formar maravilhoso tapete de pepitas sobre a calçada. Tapete enorme e inconsútil, que bem poderia, de repente, decolar; como o de Aladim e a lâmpada maravilhosa.

Por fim, vale dizer que esta crônica saiu mais por causa da mensagem que troquei com McCallum ontem à noite. De repente pedi que me contasse pelo menos uma das suas grandes saudades dos tempos da Chácara da Barra.

— Ah, meu amigo, senti o suspiro dele na tela do notebook: —não há nada que mais me faça lembrar daí do que as sopas da Lulu.

Rapidamente recordei que se tratava de vizinha nossa, adorável, amante de bons vinhos, que de vez em quando nos convidava para um prato do divino caldo. Tão maravilhoso, que, lá do Nepal, o irlandês assim se lembrou:

— As sopas da Lulu, meu caro, sempre deslizavam para dentro de mim como cálida, inesquecível canção escrita pela linda moça.
Ah, sim, a compositora das iguarias foi o grande amor da vida de McCallum.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Nós e os alienígenas


Antonio Contente

Nos setores que a isso se dedicam mundo afora, as buscas pelos extraterrestres não param, o que significa que, em muitos lugares, técnicos permanecem 24 horas com olhos, ouvidos e cabeças voltadas para o espaço sideral. O que, porém, disto chega ao noticiário, à chamada mídia, vem em ondas. 

Há épocas em que o tema, dependendo de algum procedimento que esteja sendo feito pela Nasa, por exemplo, inunda o noticiário. Em outras ocasiões, se acalma. Fazendo com que só de vez em quando alguma notícia de OVNI desgarrado surja, aqui e ali. Recentemente, com a chegada de equipamento americano às proximidades de Júpiter, veio verdadeira enxurrada de novas informações sobre as tentativas de algum contato imediato do terceiro grau. 

E até aqui em Campinas, faz poucos dias, o alinhamento de corpos celestes fez dezenas de pessoas procurarem o Observatório do Morro das Cabras, em Joaquim Egídio. Não só para ver o que o céu mostrava. Pois sabe-se que a grande ânsia dos que se interessam pelos densos caminhos das estrelas é, na realidade, sacar se estamos ou não sozinhos nas imensidões que pairam além da nossa imaginação.

Livros e cinema têm se esparramado, e muito, sobre o tema. Um dos filmes mais instigantes que vi falando da presença de alienígenas entre nós foi o modesto, porém esplêndido, Vampiro de Almas, dirigido por Don Siegel em 1955. Nele o médico vivido por Kevin McCarthy come um cortado com seres d’outros mundos que invadiam corpos humanos fazendo clones através de sementes implantadas em vegetais ou algo parecido. Filmaço.

Mas, em cima das recentes tomadas de Júpiter feitas com câmeras da Nasa, pensei mais longamente sobre não só a existência de extraterrestres como também nas possibilidades, avaliadas como reais, de que muitos deles já estejam pairando entre nós. 

O que, porém, me intriga, não seria a presença enrustida, clandestina, de tripulantes de OVNIs inclusive nas mesas do Café Regina onde, nas manhãs, derrubo meus chazinhos. Mas sim que, uma vez contatados, os habitantes do recém-descoberto Kepler-452b, distantes de nós 1.400 anos luz, se disponham a enviar, oficialmente, uma grande delegação à Terra. 

Ora, amigos, vamos falar a verdade, levando em conta que para cá chegar os extraterrestres visitantes teriam que dispor de alta tecnologia e inteligência fora do comum, o que a eles poderíamos mostrar? Este combalido corpo celeste totalmente esculhambado onde mal e porcamente vivemos? Francamente, que decepção os habitantes do espaço sideral iriam ter! Afinal, estamos num mundo em ampla decomposição, não só física como moral. 

Em ambos os casos os visitantes constatariam de cara o quanto degradamos o planeta, no qual as guerras localizadas seguem interminavelmente a matar pessoas como no espaço talvez não se matem nem moscas. Veriam os alienígenas, também, hordas de pessoas desnutridas em muitos lugares; e, horrorizados, caso sobrevoassem o Mar Mediterrâneo, talvez até tentassem salvar os negros africanos, doentes, famintos, que vagam e morrem afogados em busca de lugares para viver na velha Europa. E o aquecimento global, que tornou o último mês de junho o de maior canícula desde que medições de temperaturas começaram a ser feitas, no século 19? Horror!

Peguemos o Brasil. Já pensaram se os civilizadíssimos extraterrestres desembarcam nesta Banânia e são, de repente, levados a um diálogo com a presidente Dilma e seu criador Lula da Silva, esta dupla de gênios da raça? E, depois, usando os visitantes máquinas e métodos que os levariam a entender de tudo, com telepatia avançada, o que achariam das minúcias do desenrolar do Petrolão agora e do Mensalão em dias passados? Já imaginaram os computadores das naves espaciais chegadas do civilizadíssimo planeta Kepler-452b decodificando os pensamentos de um Eduardo Cunha, Collor de Mello ou Renan Calheiros?

Algo me diz que um sofisticado equipamento desses, colocado para detalhar aos viajantes do disco voador que o que a atriz Marieta Severo chama de “inclusão social” são os trocados que o governo doa aos miseráveis, certamente explodiria.

Assim, francamente, não dá para entender a ânsia de muitos em busca de contato com habitantes de planetas que estejam a anos luz de nós em termos de civilização. 

E não só porque absolutamente não temos o que mostrar. Como também porque um Lula, Jader Barbalho, Paulo Maluf, Collor de Mello, ministro Lobão, José e Roseana Sarney, Zé Dirceu, Genoíno, Palocci, Mercadante, Rui Falcão, Vacari, Franklin Martins, Delúbio, Jaques Wagner ou Mantega, levados, como personalidades que mandam “nestepaiz” em visita a um disco voador, certamente acabariam batendo as carteiras dos navegantes do espaço...

domingo, 30 de agosto de 2015

O prazer da leitura



Edmilson Siqueira

Comprei um ótimo livro e um problema. O livro é Queria Mais É que Chovesse do português Pedro Mexia, cheio de crônicas publicadas na imprensa lisboeta entre 2003 e 2014. O problema é que, sendo um nato escritor português, Mexia usa inúmeros vocábulos que, embora façam parte – quase todos – do nosso léxico, não são de uso corrente por aqui. Acrescentando-se a esse fato a ignorância desse cronista que jamais sonhou em ser um dicionarista ou filólogo, embora inveje o conhecimento de ambos têm de ter da língua pátria, muitas palavras são do meu total desconhecimento. Daí ter de ler o livro, de tamanho comum, menos de 200 páginas, tendo ao lado a primeira edição (de 2001) do sempre útil Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, um exemplar de vários quilos com suas 2.924 páginas, sem contar capa e contracapa.

Como não costumo ler em apenas um lugar, agora me vejo vagando pelo apartamento carregando o exemplar do Mexia em u’a mão e, na outra, o pesado Houaiss, correndo o risco de deslocar a clavícula num movimento mais rápido. E em quase todas as crônicas (em Portugal é “crónicas”) encontro, no mínimo, uma palavra cujo significa só o Houaiss pode me dar.

A primeira delas me ocorreu logo na segunda crônica do livro. Escreve Mexia: “...designação um pouco pífia que aqui repito com fins puramente facetos”. Facetos? Pois é o mesmo que chistoso, brincalhão me diz o Houaiss. E ainda ali, no mesmo parágrafo, ele tasca uma frase assim: “Numa palavra, a grunhisse abunda”. Tentei adivinhar como sendo falta de respeito ou ignorância e vou ficar sem saber. Não há registro dessa palavra no Houaiss e na rede de computadores encontrei-a em alguns textos portugueses, mas sem o significado. Ou seja, ela existe em Portugal, mas deve ter se afogado no Atlântico quando tentava chegar ao Brasil.

Logo em seguida deparo com “embiocada”. Nessa o Houaiss me salva: quer dizer “discreto” “que se esconde” e cabe certinho no texto: “Essa minoria é essencialmente formada por gente introspectiva e embiocada”. Mas a primeira definição é “envolto em bioco” e aí fui procurar o que é “bioco”, descobrindo que se trata de uma espécie de lenço que as mulheres usam para cobrir o rosto ou parte da cabeça. A palavra acabou sendo usada também para significar “discrição”.

Páginas adiante, na crônica “Nós, os Gordos”, Mexia diz que ficou “banzado” quando um amigo o colocou no rol dos mais pesados. Banzado? Tá lá no dicionário : “pasmo”, “perplexo”, “desagradavelmente surpreso”.

“E o pior é que não lobrigo soluções evidentes”. Lobrigo? Pareceu-me “percebo”, “antevejo”, mas fui lá no Houaiss conferir: o verbo lobrigar quer dizer “enxergar, com dificuldade, na escuridão ou penumbra”. Até que não fiquei muito longe do acerto.

A palavra seguinte foi “escanzelado” e descubro que se trata de alguém magro como um cão que passa fome. Jamais imaginaria.

A descoberta seguinte não teve o socorro do Houaiss e até tive certo prazer ao me deparar com tal expressão. Na minha vida noturna – hoje quase ausente, mas que já foi muito frequente – sempre estranhei o fato de um prato conter um “bife a cavalo” que se trata de um ovo sobre um bife. O nome não estaria errado? A situação não estaria invertida? Pois na crônica “O Senhor Albino”, simpático dono do Snob, o bar-restaurante preferido do autor, está lá: “...infindáveis horas de boémia mansa, de letargia melancólica, de enfado com ovo a cavalo”. Pois é, em Portugal chama-se corretamente um bife a cavalo de ovo a cavalo.

Mas volto ao dicionário para saber do que se trata “chavascal”. A crônica versa sobre tema delicado, que requer cuidados, pois comenta Mexia a vida sexual dos vizinhos do andar de cima, da qual ele é ouvinte assíduo e não por ser “todo ouvidos”. Simplesmente ouve por que as finas o teto que divide os andares não impede a passagem do som. E no meio da noite, quando ainda acordado, acaba ouvindo o que chama de “festividades” do casal vizinho. Pois “chavascal”, entre vários outros significados mais ou menos correlatos, quer dizer “falta de ordem”, “desarrumação”. Diferentemente, diga-se, do que cheguei a pensar.

Ainda estou no primeiro terço do livro e, além das palavras citadas, já encontrei várias outras que me levaram ao Houaiss. E, com certeza, muitas outras ainda estarão no meu caminho até a última crônica. Mas, quer saber? Apesar do peso e do perigo de uma distensão no braço, achei divertido andar pela casa, ao mudar de local de leitura – às vezes é a cama, outras vezes é o sofá da sala, já foi e será de novo, se o tempo ajudar, o terraço – carregando o pequeno exemplar do Pedro Mexia e o robusto e pesado Houaiss. Pois para mim, ignorante dos recônditos da língua pátria, não haveria o prazer da leitura de um sem o outro.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Os suspiros no silêncio


Antonio Contente


Cássia e Leala, ambas lindíssimas, eram duas amigas que moravam juntas dividindo o aluguel de um quarto e sala no Centro. Foi num sábado quando as duas curtiam o fim de semana que Cássia, tendo saído para trocar pernas pelo shopping, à tarde, voltou para casa no começo da noite, excitadíssima. Disse para a companheira de morada, mal entrou:

— Acabo de conhecer o homem da minha vida!

A outra, que estava até meio distraída, levantou a vista do romance Sombras da Primavera, de Keila Gom, que começara a ler:

— Como é que é?

— Acabo de conhecer o homem da minha vida!

Daí detalhou que sentara na Praça da Alimentação para um lanche quando notou que estava sendo observada. O rapaz encontrava-se na mesa ao lado com dois imensos olhos azuis, intensamente azuis, da cor de um total e acabado céu de brigadeiro, cravados nela. E então, completamente tomada pela beleza do sujeito, se viu prestes a concluir que se ele não se manifestasse, ela mesma iria falar-lhe.

— Mas o cara era mesmo bonito? — Leala quer saber.

— Bonito? Você sabe o Brad Pitt ou o Tom Cruise, não sabe? Pois bem, os dois, perto dele, eram o ex-presidente Lula com sua eterna cara de bebum brega.

Cássia segue contando que a troca de olhares se tornou algo, pelo menos para ela, quase insuportável. Até que, de repente, o camarada levanta e aponta a cadeira vaga na mesa que a fulaninha ocupava.

— Bom — Leala interrompe — apontou a cadeira para perguntar se podia sentar, certo?

— Certo. Só que não perguntou nada. Sentou, retirou do bolso interno do paletó um caderninho de notas e escreveu: “Desculpe, mas eu sou mudo”.

— Meu Deus! — A outra arregala os olhos.

Cássia então prossegue contando que, na base das mensagens escritas, conversaram horas. E que sentia estar começando a viver um grande, um imenso amor.

Bom, nos dias que seguiram ela e Moura — este era o nome do galã — de fato continuaram a se encontrar, sempre a “falar” com os bilhetes trocados cara a cara ou mensagens que a internet possibilitava. E se passam vários dias. Por fim naquela tarde em que saíram do discreto motel na estrada, após impecáveis instantes d’amor, foram comer alguma coisa num restaurante perto.

Ali, de repente, movida sabe-se lá por qual tipo de impulso, Cássia pega o bloco através do qual se comunicavam e indaga, com todas as letras: “Você, por acaso, não é casado?”. Perguntou e, ao mesmo tempo, se arrependeu, pois o bonitão ficou pálido. Tentou escrever alguma coisa, só que as mãos tremiam. Agita-se na cadeira.

O que haviam pedido para comer nem chegara, porém o rapaz, levantando, larga sobre a mesa duas notas de 100 reais e sai. Pega o carro estacionado logo ali; some, rangendo pneus.

A noite caíra quando Cássia chegou ao apartamento com os olhos vermelhos de tanto chorar. Leala se derrama:

— O que foi que aconteceu, menina?

— Ele... Ele... — Ela tenta falar.

— Ele o que?

— O Moura...

— O que tem o Moura?

— Descobri que é casado!

Daí em diante a paixão se desdobrou em angústia e desespero. Sem conseguir trabalhar, Cássia, que estava com férias vencidas, resolveu pedir o benefício. Leala até ponderou com um “mas você pretende ficar em casa curtindo essa fossa”? A outra primeiro a olhou longamente pro nada. Após gemeu, arrancando a frase do mais fundo do coração: “Vou esperar que Deus me ajude a morrer”.

Bom, mas não morreu e, aos poucos, a passagem dos dias começou a cicatrizar a ferida. Recomeçara a sair para um cineminha, um passeio pelas ruas do comércio central, um cafezinho nas esquinas da vida.

Até que, naquela noite, batem na porta do pequeno apartamento das moças, era o porteiro do prédio tendo nas mãos um envelope. Pelo sobrescrito Cássia logo reconhece a letra de Moura. Olhando nos olhos de Leala, diz:

— É dele.

Rapidamente abre para dar de cara com um bilhete e uma fita cassete das antigas que sumiram do mercado com a chegada dos CDs. A mensagem dizia: “Espero que você ache onde possa ouvir esta fita. Poderia enviar um pendrive, mas gosto do suspense. Nela explico tudo”.

Há longo silêncio entre as duas amigas. Cássia de pé, com a vetusta fita entre os dedos. De repente diz, balançando a coisa no ar:

— Só faltava essa, pelo jeito o Moura, além de casado, fala! Você já pensou se a voz dele, lindo do jeito que é, for igual à do Cid Moreira no tempo em que fazia o Jornal Nacional? Aí é que a paixão vai me matar...

Vira-se então, com gesto rápido, e atira a fita pela janela do décimo quinto andar em que moravam. Isso feito sentiu como se tirasse um enorme peso, do coração e da alma. E sorriu como se um passarinho cantasse dentro do seu peito.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ora, direis, ouvir estrelas...



Antonio Contente

Pra mim o céu, não o das religiões, sim o que nos cobre, é visão a permitir o exercício do alcance. Com certeza não sabemos onde termina, ou se termina. Porém, com certeza, começa no lugar de onde o observamos.

Antigamente, sem as tantas informações astronômicas hoje disponíveis, não tínhamos intimidades maiores com as cerúleas circunstâncias. Todavia, apesar, sempre para elas olhávamos; e as noites estreladas ou enluaradas faziam parte das nossas caminhadas em busca do belo.

Bilac, o poeta parnasiano, num dos seus talvez mais famosos sonetos, chegou a ironizar as pessoas que não acreditavam pudéssemos ouvir e entender estrelas. E mesmo quando, ao final do poema, acentuou ser isto dádiva reservada aos apaixonados, certamente contribuiu para que muita gente passasse a olhar para o alto em certas noites.

Falo disso porque neste Correio Popular do último dia 14 de junho li, em excelente reportagem de Luciana Félix, da Agência Anhanguera, que está sendo construído, junto ao Observatório Municipal, em Joaquim Egídio, um “astroteatro”.

Que nada mais será do que um local onde 80 pessoas a cada vez poderão, devidamente deitadas, observar estrelas. Com um astrônomo no meio a explicar. Não, digamos, com o mesmo espírito do poeta acima citado. Porém a falar, sim, de algo fascinante.

Isso, naturalmente, é uma contingência; oferenda do mundo moderno. Uma vez que os astros, ofuscados por causa das luzes das cidades, nelas mal podem ser observados a olho nu. Ou não... Todavia, seguem a aguçar curiosidades.

A primeira reflexão a que o futuro “astroteatro” me remete é que outrora as estrelas apareciam facilmente. E nem vou buscar lembranças dos tempos da meninice, mas uma muito cara daqui mesmo, da Chácara da Barra. Quando o querido chefe André, meu filho, era criança, costumava com ele deitar, em certas noites, num elevadinho de cimento no quintal para apreciar o cintilar dos astros.

Não foram poucas as vezes em que, com eles tão nítidos, conversamos sobre os inúmeros sois que vivem lá em cima. Num velho gravador de fitas alimentado a pilhas, se o luar também se abria, invariavelmente nos entregávamos ao infinito ouvindo Clair de Lune, de Debussy. Fica a sugestão para a música de fundo das aulas que serão ministradas no Observatório das Cabras.

E foi depois de ter lido a matéria da colega Luciana que passei a indagar, aqui e ali, entre meus amigos, quais ainda buscam ver estrelas. Fiquei surpreso. O empresário Pedro Porto, por exemplo, dono de verdejante fazenda nas brenhas do município de Mococa, me contou que é enorme a nitidez com que os astros aparecem no céu de lá. E mesmo com parcos conhecimentos de astronomia, fez mapa deles.

Como percebeu certa incredulidade no meu olhar, chamou-me para um uisquinho na sua linda mansão campineira e, de repente, quando eu menos esperava, abriu diante dos meus espantados olhos vários mapas das instâncias celestes desenhados de próprio punho por ele.

“Esta aqui — me disse, mostrando uma das cartas — é a Constelação de Orion, nosso céu mocoquense no Verão.” Na continuação exibiu Leão, do Outono; Escorpião, do Inverno; e, Pegasus, da Primavera. Saí de lá convencido que o Observatório Municipal está perdendo um ótimo professor para se revezar com o efetivo no futuro “astroteatro”. Com a vantagem de que, por não precisar de ganho extra, dará aulas de graça...

Mas a surpresa maior estava reservada para a manhã de sábado quando fui à casa do professor Borges, encravada num silencioso recanto de Barão Geraldo. Minha intenção era pedir que me deixasse estar em seu quintal numa noite qualquer para olhar o céu limpo que sempre faz por lá. Só que, quando cheguei à enorme residência, percebi, logo na entrada, muitas pessoas a se movimentar pra cá e pra lá.

Borges, porém, tratou de explicar que se tratava apenas dos preparativos para o casamento de um dos seus filhos que ocorreria ali mesmo, com festança e tudo, no dia seguinte. Arrastou-me para a biblioteca e logo disse que nem era muito favorável ao enlace, pois tanto o noivo como a noiva trafegam por parcos 18 anos. Todavia, retirando foto de uma gaveta mostra, dizendo:

— Mas veja aqui, esta é a moça por quem meu filho se apaixonou. Não dava mesmo para resistir, certo?

Concordei logo porque, de fato, a criatura não poderia ser mais linda. E vendo que o instante não era propício para pedir o quintal a fim de fazer observações astronômicas, levantei para sair. Mas antes, já junto da porta, perguntei o nome da futura nora do amigo.

— Estrela — ele respondeu — Estrela Krüll, filha do alemão lá da rua de cima.

Contive o susto, pálido de espanto como o personagem do soneto de Bilac. Na rua segui em frente, recitando cada verso. Que sei de cor.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A lembrança de J. Toledo


Em setembro vai fazer oito anos que o amigo Jota Toledo morreu. Lembrei dele hoje de manhã, lembro sempre, todas as manhãs em que tomo café em casa. O motivo é a história que segue abaixo, real, vivida, como diria Caetano, “na minha ‘adolescidade’, idade de pedra e paz”.

Foi numa daquelas noites regadas a uísque, cerveja e alguns queijos, na Maison Toledo, lá em Sousas, que tudo aconteceu. Jotinha ou J. Toledo como ele assinava suas obras, comandava os colóquios linguísticos ou, como gostava de dizer, as “tertúlias” que varavam a madrugada e terminavam quando o sol já dava suas caras lá pelas bandas da Rodovia Heitor Penteado.

Éramos uns cinco ou seis notívagos, provavelmente numa noite de sábado, a favorita de Jota para reunir amigos, falando de tudo e de todos, metendo a boca no governo – qualquer governo – elogiando alguns artistas e girando a tábua de queijos que Diane preparava.

Lá pelas quatro da manhã, Jota resolveu tomar café. Ele gostava de contrastar o gosto do uísque com um café quase sem açúcar. Eu achava estranho, mas não é que outros amigos acompanhavam-no nessa, pra mim, exótica aventura etílico-gastronômica?

Como só eu não quis café, foram distribuídas umas quatro ou cinco xícaras pela mesinha de centro, mas descobriu-se, em seguida, que não havia colherinhas. Jota virou-se para mim e pediu:

- Ed, como você não vai tomar café, desce lá na sala, tem uma cristaleira e, na gaveta de baixo, você abre e encontrará colherinhas de café. Pega umas lá pra gente. Aproveita e traz uma bandeja que está em cima da mesa.

E lá fui eu, descendo a estreita escada com muito cuidado, para que o efeito do álcool não vencesse a disputa entre minhas pernas e os degraus. Abri a gaveta e peguei um punhado de colherinhas. A bandeja na mesa era mais pesada do que eu pensava e para evitar qualquer problema, pus as colherinhas no bolso do paletó que usava, que, aliás, fora presenteado pelo próprio Jota. Subi com mais cuidado ainda, botei a bandeja na mesinha de centro e distribuí as colherinhas.

E a noite prosseguiu até chegar a manhã e todos irmos embora, sob os protestos do Jota que bem ficaria mais algumas horas papeando. “Vai todo mundo embora? É um complô?”, sempre dizia ele diante da debandada sonolenta da turma.

Uns três anos depois, com todos seus amigos já sofrendo a perda do Jota, que decidiu não sofrer mais por conta de uma terrível doença, peguei o paletó no guarda roupa para doá-lo, pois eu havia engordado e não me servia mais. Aliás, foi esse o motivo também do Jota ter me dado o dito cujo. Era de um tecido meio acamurçado, verde escuro, bonito, mas, depois daquela noite, nunca mais o usei. Ao dobrar para colocá-lo num saco plástico, caiu, de um dos bolsos, uma colherinha, igual às outras que eu havia pegado na gaveta da cristaleira. Ela havia sobrado e eu não percebera. É uma colherinha de prata, provavelmente de algum faqueiro elegante já com suas peças dispersas. 

Jota tinha morrido há pouco tempo e eu fiquei olhando pra colherinha e lembrando da noite do café e de todas as noites que passamos naquele enorme sótão que ele transformou em estúdio ou nas noitadas em bares diversos, desde a Barão Velha do Centro à  Adega Florence na Vila Nova, do Alfredo’s do Cambuí à Adega dos Arcos do Passarinho no balão do Centro de Convivência, do Água Furtada ao 88 na Vila, do City Bar ao Paulistinha, do Clube XV ao Bati Papo e muito outros que vimos nascer e morrer, em intermináveis noitadas por essas Campinas. Foi difícil conter algumas lágrimas. 

A colherinha, a única de prata que tenho, tem me acompanhado em todos os cafés da manhã que preparo em casa desde que ela caiu do bolso do paletó. É lavada com todo carinho e volta para a gaveta das colheres.

A querida Diane que me perdoe, mas jamais a devolverei. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

Estamos de volta!

(Antonio Contente e eu decidimos retomar esse blog só de crônicas que havíamos deixado sem postagem há quase um ano. E recomeçamos com uma crônica do jornalista nascido no Pará, publicada recentemente no Correio Popular, onde ele faz bela homenagem a uma grande escritora.  Ah, o blog continua aberto a quem quiser publicar crônicas.)



A Escritora

Antonio Contente

Uma coisa absolutamente óbvia, porém pouco observada, é que o todo de nossas existências é formado por pequenas vidas que nos envolvem. Acho que seria certo dizer que da maternidade ao final, somos personagens de um grande painel feito de acontecimentos autônomos a formatar a história completa.

Quem já não se descobriu a fazer comentário como esse: “Ah, experimentei bela emoção; valeu por uma vida”. Meus primeiros tempos de Campinas, por exemplo, começaram quando eu mal entrara na casa dos 20 anos. E hoje, tantos anos passados, vejo que foi algo com princípio meio e fim; embora o derradeiro, o geral fechar de cortinas ainda não tenha chegado.

Dos iniciais tempos campineiros, o que lembro? Muitas coisas. Emocionantes algumas, ternas outras, terceiras nem tanto, porém todas pintadas de forma que vale a pena recordar. Uma das mais marcantes, certamente, foi ter conhecido a escritora.

Ocorreu assim: como eu era amigo de sua filha, de vez em quando aparecia pro cafezinho num simpático sobrado na Rua Guilherme da Silva, Cambuí. Certa manhã, sentado na sala, escutei um “plec, plec, plec” a bater; reconheci imediatamente que se tratava de máquina de datilografia com as quais, como estudante de jornalismo na Cásper Líbero, começava a ter intimidades. Perguntei à amiga quem é que batucava. “Minha mãe”, ela respondeu. “E escreve o quê?”, segui, curioso. “Um livro”, foi a resposta. “Livro?” Levantei as sobrancelhas. “Romance”, fechou a informação.

Daí em diante ouvindo o “plec plec” sempre que aparecia para visitas, soube que a escritora todos os dias, às cinco da manhã, já estava na sua maquininha. Daí seguia com os dedos nas teclas até pouco antes do almoço; uma vez que, após o meio-dia, precisava sair para cumprir atividade como funcionária pública. Minha curiosidade sobre o que redigia foi natural. Todavia, mesmo tendo visto de perto várias vezes a autora, certamente tolhido pela diferença de idades que antigamente tinha certa força, nunca perguntei nada. Só a olhava, com secreta admiração.

Depois desse período de mais ou menos um ano a frequentar Campinas, cidade pela qual me apaixonei, tendo terminado o curso de jornalismo em São Paulo precisei começar a batalhar.

Primeiro andei pelo Rio, depois tornei à Capital paulista e os anos foram correndo. Um dia eu estava fora do país a trabalho quando recebo um pacote, pelo Correio. Era um livro, com o seguinte bilhete: “Aí segue o resultado do ‘plec plec plec’ que você ouvia em minha casa, em 1959”. Quem assinava era a minha amiga, filha da escritora. Assim foi que, sofregamente, li o romance Natal Solitário, esplêndido, história emocionante, maravilhosa; aliás, premiado pela Academia Brasileira de Letras.

Mais algum tempo e volto a frequentar Campinas; a casa da amiga, agora, era um enorme apartamento. Em certa manhã, lá escuto outra vez o “plec plec plec”. A informação veio em cima, antes mesmo que eu perguntasse: “É, minha mãe já está batucando outro”. E ainda mais adiante no tempo, agora novamente numa grande casa, o barulhinho da máquina de datilografar acabou sendo a canção que ouvia curioso e atento, em dias de visita.

Assim, de “plec plec” em “plec plec”, saíram vários romances, além do que cito acima. Lembro neste instante de pelo menos mais três: "Céu Escuro", "Ana e O Órfão" e a "Mulata", todos ótimos, premiados. Enquanto isso, a autora se tornou a primeira mulher e entrar para a Academia Campinense de Letras (ACL) e a primeira campineira a ser premiada pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

Na administração municipal sempre ocupou cargos inseridos no universo próximo às suas atividades de intelectual, como diretora de Cultura da Prefeitura e diretora do Teatro Municipal.

Mas o pano do último ato da bela e longa vida da escritora e poeta só se fechou no último dia 19 de junho, quando faleceu. Tinha 102 anos, cujas muitas vivências transformou em livros não só de prosa, mas também poesias.

Foi filha de fazendeiro de café dos velhos tempos e o que observou entre terreiros e plantações está nas obras que deixou. Quando jovem, tocava piano, todavia, aos poucos, substituiu as "Valsas" e "Noturnos" de Chopin, que gostava de dedilhar, pelo “plec plec” das máquinas de escrever. Felizmente, é claro.

No dia 20 deste junho que finda, manhã fria porém luminosamente bonita, vi a personagem desta crônica ser sepultada, no Cemitério da Saudade. Lá estavam Zezinha, a filha, minha amiga de tantos anos, mais Clirian e Spencer, seus irmãos. E muitos parentes e admiradores.

Quando certas pessoas especiais como foi a escritora e poeta Maria José de Moraes Pupo Nogueira morrem, diziam antigamente, começam a subir. E sobem, e sobem, e sobem... Por fim, se transformam em estrelas.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Esculturas de Paris



Edmilson Siqueira

Andar por Paris, além do encantamento normal com cada canto, é também trombar com esculturas, que, claro, espalham também suas parcelas de beleza. Em 21 dias flanando pela cidade, fiz cerca de mil e duzentas fotos. Bendita a hora em que algum gênio da informática resolveu inventar a foto digital. Agora temos liberdade quase total de clicar apontando para onde quiser e a todo momento. Antes era complicado. Fui para Paris duas vezes levando uma maquininha Kodak, de plástico, foco automático e flash com vontade própria – quando achava que não tinha luz suficiente, ele iluminava a cena. A maquininha era barata, mas o resto era caro. Comprei, para cada um das viagens, dez rolos de filme com 36 poses (poses!) em cada um. Usei todos eles. Na volta, mandei revelar e paguei quase quinhentos reais pelas 360 fotos de cada viagem.

Hoje posso escolher se quero alguma foto no papel e tudo que gastei foram 12 pilhas para tirar as quase 1,2 mil fotos que estão devidamente arquivadas no micro e no HD externo. Zezé, em suas viagens, tirou quase o mesmo tanto e como tem uma máquina com bateria, nem pilha gastou.

Mas falava eu das esculturas de Paris. Pois dessas quase 1,2 mil fotos, trinta e nove são de esculturas (na verdade, são 38 esculturas, pois há duas fotos de uma mesma escultura). Algumas famosas, mas a maioria, eu diria, anônima, que está nos parques sem qualquer placa de identificação, ou está no alto de um prédio ou de uma torre, apenas dando a algum espaço uma perspectiva artística, provocando um olhar mais atento, uma admiração fortuita.

São ninfas nuas, anjos barrocos, anciãos cansados, cientistas cuja fama se restringe à ciência que abraçou (o que já é um feito, claro), filósofos, poetas famosos, outros nem tantos, pensadores, polemistas, heróis das guerras, seres mitológicos, animais de todos os tipos etc.

Há de tudo entre as esculturas que permeiam Paris. As 38 fotografadas por mim, creiam, é parcela mínima. Há muitas, mas muitas mesmo, fincadas nas esquinas, nas ruas, nas avenidas, nas passagens e pontes, nas portas dos teatros, nas praças e jardins. Estão, claro, enfeitando uma cidade, como a perenizar a arte que as concebeu, como a eternizar a cidade que as acolheu. 







































quinta-feira, 24 de julho de 2014

Vigiando o tempo


Edmilson Siqueira

Já no Brasil desde a última sexta-feira, andei arquivando e, claro, revendo, as mais de mil fotos que tirei nos 21 dias que passei em Paris. E descobri que, não sei levado por qual motivo, acabei fotografando uma série de relógios, mais precisamente treze, entre os muitos que enfeitam a paisagem parisiense com seus diferentes estilos. E, para um brasileiro acostumado com a pouca ou nenhuma importância que dão por aqui a esses maravilhosos trabalhos artesanais, outro fato me chamou a atenção: todos, sem exceção, estavam funcionando perfeitamente, marcando a hora certa. Nesses tempos de relógios digitais, no painel do carro, no telefone celular, nos painéis de propaganda, dá certo prazer erguer os olhos e contemplar essas obras primas com seus grandes ponteiros que nos fazem lembrar não apenas da hora certa, mas da arte do relojoeiro, da precisão de seus sensíveis mecanismos e do apurado trabalho de manutenção a eles dedicado para que se mantenham belos e majestosos a, mais que marcar o tempo, vigiar mesmo nossas horas, nossos dias, nossos meses, nossos anos e nossos séculos.